Com indústrias prevendo redução das margens e número recorde em recuperação judicial, fundos de recebíveis avançam como alternativa para financiar capital de giro e reestruturações e já respondem por 36,9% das operações do mercado de capitais
O crescimento dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) nos últimos 3 anos revela uma mudança que vai além do aumento do dinheiro movimentado: o mercado passou a realizar muito mais operações, sem uma expansão proporcional do tamanho médio de cada uma. No 1º semestre de 2023, as ofertas de FIDCs somavam R$ 14,75 bilhões em mais de 200 operações. No mesmo período de 2026, chegaram a R$ 53,1 bilhões distribuídos em 559 operações. A diferença de R$ 38,35 bilhões representa crescimento de 260% no volume, o equivalente a tornar o mercado 3,6 vezes maior em 3 anos, ou uma expansão média composta de aproximadamente 53,3% ao ano. A quantidade de operações, por sua vez, avançou 179,5%, de 200 para 559, praticamente triplicando no período. O contraste aparece com mais força no ticket: dividindo o volume captado pelo número de operações, o valor médio passou de cerca de R$ 73,75 milhões para R$ 95 milhões, avanço de apenas 28,8%. Em outras palavras, enquanto o dinheiro movimentado cresceu 260% e o número de estruturas aumentou 179,5%, o cheque médio avançou menos de um terço.
Para Gabriel Padula, CEO da Everblue, a diferença entre esses ritmos indica que o FIDC começa a ocupar espaços que antes eram atendidos quase exclusivamente pelo crédito bancário ou por operações restritas a grandes companhias. “O principal movimento não é simplesmente a criação de FIDCs cada vez maiores. O que estamos vendo é a multiplicação de estruturas. Quando uma empresa consegue organizar melhor seus recebíveis, produzir dados sobre a carteira e estruturar garantias de forma adequada, ela passa a ter condições de acessar investidores com uma operação desenhada para o seu fluxo de caixa. Isso amplia muito o universo em que o FIDC pode fazer sentido”, afirma. A evolução tecnológica na análise de carteiras, a especialização de gestores, administradores e estruturadores e a maior padronização operacional ajudam a reduzir parte da complexidade envolvida nesse mercado. O ambiente regulatório também mudou. A Resolução CVM 175, em vigor desde outubro de 2023, modernizou as regras aplicáveis aos fundos de investimento e incorporou um regime específico para FIDCs; em março de 2026, a CVM voltou a ajustar o Anexo II da norma para remover entraves à cessão de determinados direitos creditórios e facilitar o uso do instrumento como fonte de recursos para a economia real.
A pulverização fica ainda mais evidente quando os FIDCs são comparados ao restante do mercado de capitais. No primeiro semestre de 2026, foram registradas 1.513 operações, que levantaram R$ 361,8 bilhões, o melhor resultado para o período desde o início da série da Anbima, em 2012. Desse universo, 559 operações eram de FIDCs. A divisão de 559 por 1.513 resulta em 36,95%, o que significa que praticamente 37 de cada 100 operações realizadas no mercado de capitais no semestre pertenciam a essa categoria. Quando a comparação é feita pelo dinheiro captado, porém, a participação cai para 14,68%, resultado da divisão dos R$ 53,1 bilhões dos FIDCs pelos R$ 361,8 bilhões do mercado. Ou seja, os fundos concentraram mais de um terço das transações com menos de um sexto do volume financeiro. O ticket médio também ajuda a dimensionar essa diferença: considerando todo o mercado, cada operação movimentou, em média, cerca de R$ 239 milhões, contra aproximadamente R$ 95 milhões nos FIDCs, valor cerca de 60% menor. O dado não significa que 179,5% mais empresas passaram a utilizar esses veículos, já que uma mesma companhia pode participar de mais de uma emissão, mas mostra de forma objetiva que o número de estruturas se tornou muito mais pulverizado.
Esse movimento ocorre em um momento em que o custo do dinheiro ainda exerce pressão sobre empresas brasileiras, apesar do início do ciclo de flexibilização monetária. O Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano em setembro, após sucessivos cortes, mas a taxa permanece em nível elevado. Ao mesmo tempo, a atividade começa a perder velocidade: o PIB avançou 0,5% no segundo trimestre, abaixo do ritmo de 1,1% observado nos três primeiros meses do ano, enquanto o consumo das famílias recuou 0,4%. Em setembro, o IBGE informou ainda que o IPCA caiu 0,32% em agosto, levando a inflação acumulada em 12 meses de 4,44% para 4,22%, movimento que reforçou as apostas em nova redução dos juros. Para Padula, uma eventual continuidade da queda da Selic tende a mudar, mas não eliminar, a demanda por estruturas de crédito alternativas. “Com os juros elevados, a empresa procura diversificar suas fontes porque o custo e a disponibilidade de crédito pesam diretamente no caixa. À medida que a Selic cai, o investidor também passa a olhar com mais atenção para o prêmio de crédito e para a qualidade de cada operação. Nesse cenário, o FIDC deixa de ser apenas uma alternativa em momentos de crédito caro e passa a ocupar um espaço estrutural no financiamento das empresas”, afirma.

