Com avanço entre estudantes, trabalhadores e empresas, especialista explica como usar a inteligência artificial para ganhar produtividade, aprender melhor e tomar decisões com mais clareza
A inteligência artificial deixou de ser uma ferramenta restrita a programadores, grandes empresas e laboratórios de tecnologia. No Brasil, cerca de 50 milhões de pessoas com 10 anos ou mais já utilizam IA generativa, o equivalente a 32% dos usuários de internet. O avanço, porém, ainda revela diferenças importantes de acesso e preparo, o uso chega a 69% na classe A, mas cai para 16% nas classes D e E, enquanto 59% dos usuários com ensino superior recorrem à tecnologia, contra 17% entre aqueles com ensino fundamental. Entre estudantes, a presença da IA já é ainda mais forte, 86% dos que usam a ferramenta dizem aplicá-la em pesquisas ou trabalhos acadêmicos. Nas empresas, 13% das companhias brasileiras utilizam aplicações de inteligência artificial, índice que sobe para 38% entre grandes empresas. No mercado de trabalho, quase 30 milhões de trabalhadores brasileiros estavam, no terceiro trimestre de 2025, em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa, o equivalente a 29,6% da população ocupada.
A velocidade desse avanço abriu uma discussão que vai além do acesso à tecnologia. A pergunta central agora é como usar a inteligência artificial de forma produtiva, segura e útil, sem transformar a ferramenta em substituta do pensamento humano. Para Celso Camilo, professor de inteligência artificial da Universidade Federal de Goiás, a IA pode ajudar em tarefas simples da rotina, como organizar ideias, resumir documentos, planejar estudos, revisar textos, montar cronogramas e comparar informações, mas o ganho real depende da forma como a pessoa interage com a ferramenta. “A inteligência artificial deve ser usada como uma parceira de análise, não como uma geradora de respostas automáticas para tudo. Ela ajuda a economizar tempo, organizar informações e ampliar repertório, porém o usuário precisa continuar conferindo dados, fazer boas perguntas, utilizar do contraditório e aplicar senso crítico ao resultado.”, afirma Celso Camilo, Professor de Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás.
No cotidiano, um dos usos mais positivos da IA está na organização da informação. Em vez de pedir apenas uma resposta pronta, o usuário pode pedir explicações em níveis diferentes, exemplos práticos, comparações, listas de pontos de atenção e perguntas que ajudem a aprofundar determinado tema. Para estudantes, isso pode significar transformar um conteúdo difícil em um roteiro de estudo mais claro e inteligível. Para profissionais, pode ajudar na preparação de reuniões, na revisão de argumentos, na análise de cenários e na construção de apresentações mais objetivas. “A boa utilização da IA começa quando a pessoa sabe formular o problema. Um estudante pode pedir que a ferramenta explique um conceito de três formas diferentes. Um profissional pode pedir que ela organize riscos, oportunidades e dúvidas antes de uma decisão. O ponto não é copiar a resposta e terceirizar o cognitivo, mas usar a tecnologia para pensar melhor.”, diz Camilo.
O cuidado também passa por reconhecer os limites da ferramenta. Sistemas de IA podem errar, inventar informações, reproduzir vieses e apresentar respostas com aparência convincente, mesmo quando não estão corretas. Por isso, a orientação de especialistas é tratar a tecnologia como apoio, não como autoridade final. Em temas sensíveis, como saúde, finanças, decisões jurídicas, dados pessoais ou informações acadêmicas, a checagem se torna ainda mais importante. A IA pode acelerar processos, mas não elimina a responsabilidade de verificar fontes, proteger dados e avaliar consequências. “A inteligência artificial é mais útil quando entra no processo como apoio à análise. Ela pode mostrar caminhos, levantar hipóteses e organizar informações, mas decisões importantes precisam continuar passando por julgamento humano, contexto e responsabilidade.”, afirma Camilo.
DICAS PARA O LEITOR
- Use a IA para organizar ideias, não apenas para buscar respostas
Antes de pedir um texto pronto ou uma solução fechada, explique o contexto, diga qual é o objetivo e peça caminhos possíveis. A ferramenta tende a ser mais útil quando ajuda a estruturar pensamento, comparar alternativas e mostrar pontos que talvez passassem despercebidos.
- Faça perguntas mais específicas
Pedidos genéricos costumam gerar respostas superficiais. Em vez de perguntar apenas “explique esse tema”, vale pedir exemplos, riscos, prós e contras, explicação para iniciantes ou um passo a passo. Quanto melhor a pergunta, maior a chance de receber uma resposta útil.
- Confira informações importantes antes de usar
A IA pode errar dados, datas, nomes, leis e referências. Sempre que a resposta envolver decisões profissionais, estudos, saúde, dinheiro ou informação pública, o ideal é checar em fontes confiáveis antes de repassar ou aplicar o conteúdo.
- Não coloque dados pessoais ou sigilosos na ferramenta
Evite inserir documentos confidenciais, senhas, informações bancárias, dados médicos ou detalhes estratégicos de trabalho. A inteligência artificial pode ajudar muito na rotina, mas o uso responsável também envolve cuidado com privacidade e segurança.
- Peça ajuda para aprender, não para substituir o aprendizado
A IA pode explicar uma matéria, criar exercícios, revisar um texto e apontar dúvidas. O melhor uso acontece quando a pessoa participa do processo, pergunta novamente, compara respostas e tenta entender o raciocínio, em vez de apenas copiar o resultado final.
- Use a tecnologia para ganhar tempo em tarefas repetitivas
Montar listas, resumir reuniões, organizar prioridades, revisar mensagens e transformar anotações em um plano de ação são usos simples e produtivos. Isso permite que estudantes e profissionais concentrem mais energia em análise, criatividade e decisão.
- Mantenha senso crítico diante de respostas muito convincentes
A IA escreve com segurança, mesmo quando pode estar errada. Por isso, respostas bem redigidas não devem ser confundidas com respostas corretas. O usuário precisa questionar, pedir fontes, comparar informações e avaliar se aquilo faz sentido no contexto real.
O avanço da inteligência artificial no Brasil tende a mudar a forma como as pessoas estudam, trabalham, pesquisam e tomam decisões. O impacto positivo, porém, dependerá menos da novidade da ferramenta e mais da capacidade de usá-la com responsabilidade. Em um país com desigualdades de acesso, formação e produtividade, a IA pode ampliar oportunidades se for acompanhada de educação digital, orientação crítica e uso consciente. Quando aplicada com método, a tecnologia pode reduzir tarefas repetitivas, melhorar o aprendizado, apoiar pequenos negócios, aumentar a autonomia de trabalhadores e tornar a rotina mais eficiente. A inteligência artificial não elimina a importância das pessoas, mas pode fortalecer quem souber perguntar melhor, interpretar melhor e decidir com mais clareza.

