
*Por Franklin Tomich, sócio-fundador da Accordia*
A contabilidade passa por uma transformação profunda com a incorporação da inteligência artificial. A automatização de tarefas antes operadas manualmente está prometendo ganhos expressivos de produtividade. De acordo com estimativas da Deloitte, a IA pode reduzir custos operacionais em até 25% ao liberar milhares de horas de trabalho contábil repetitivo. Além disso, iniciativas como as da PwC, que obteve um aumento de 27% na eficiência operacional ao implementar IA nos processos financeiros de uma rede de hotéis de luxo, demonstram o potencial concreto da tecnologia. Entretanto, o entusiasmo com esses avanços técnicos precisa ser equilibrado por uma análise crítica dos riscos estruturais, éticos e profissionais que essa automação traz para o setor.
Mais do que uma evolução técnica, o uso na contabilidade, representa uma mudança de paradigma que exige reflexão profunda. A capacidade de processar grandes volumes de dados com precisão e velocidade oferece ganhos indiscutíveis, mas também impõe riscos significativos. Modelos opacos e algoritmos treinados com dados enviesados podem comprometer decisões e análises financeiras. Além disso, há um risco crescente de perda da supervisão crítica humana, o que pode levar a interpretações automatizadas equivocadas ou à omissão de fraudes fora dos padrões detectáveis pela máquina. Sem critérios éticos bem definidos e uma governança estruturada, a tecnologia deixa de ser uma aliada e passa a representar um fator de vulnerabilidade para o setor.
Para que a inteligência artificial não fragilize a contabilidade, mas sim a fortaleça, é indispensável adotar estruturas de governança sólidas, estabelecer critérios éticos claros e investir na capacitação contínua dos profissionais. A supervisão humana deve ser inegociável, especialmente em áreas que exigem julgamento técnico. A verdadeira transformação não ocorrerá apenas com a substituição de tarefas manuais por máquinas, mas quando houver uma integração equilibrada entre poder analítico das ferramentas e a sensibilidade crítica dos contadores. Essa combinação é o que permitirá extrair o melhor da tecnologia sem abrir mão da responsabilidade profissional que sustenta a confiança no setor contábil.
*Franklin Tomich é sócio-fundador da Accordia, plataforma de inteligência analítica voltada para M&A e finanças corporativas. Mestre em Finanças pela Fundação Dom Cabral, com foco na aplicação de inteligência artificial em processos financeiros, atua há mais de 15 anos no mercado de fusões e aquisições, liderando iniciativas que unem tecnologia e inteligência financeira para transformar a forma como negócios são avaliados e conduzidos.








