Em um Brasil onde apenas 37,9% das empresas sobrevivem além dos cinco primeiros anos, segundo o IBGE, a trajetória da empresária Flávia Vandriane, de Delmiro Gouveia, sertão de Alagoas, é um exemplo raro de perseverança. Ao lado do marido, Jessé Onofre, ela transformou uma receita caseira em um negócio que completa 15 anos de história: a Maná Biscoitos. Mais que uma marca, os produtos se tornaram um símbolo de afeto, tradição e resistência sertaneja.
“Criar a Maná foi quase instintivo — era como dar vida a algo que já existia dentro da gente”, relembra Flávia. O início foi artesanal, com produção limitada, entregas feitas pelos próprios fundadores e muito improviso.
Entre tropeços e superação
O caminho, no entanto, não foi fácil. Como milhares de pequenos empresários no país, o casal enfrentou dificuldades financeiras e chegou a ver o negócio ruir. Mas a persistência falou mais alto. “Recomeçamos com o que tínhamos, sem perder a ousadia de sonhar grande. Quando criamos as primeiras embalagens, já dizíamos que elas estariam nas maiores vitrines do país”, conta.
A virada aconteceu quando a fábrica foi formalizada e passou a gerar empregos na região. O impacto foi imediato, movimentando a economia local e transformando o sonho familiar em fonte de renda para dezenas de pessoas. “Ali entendi que a Maná era mais que um negócio — era uma missão de vida”, afirma a empresária.
O peso das micro e pequenas empresas
A história de Flávia ganha ainda mais relevância dentro do cenário nacional. No Brasil, cerca de 20% das empresas fecham no primeiro ano, e menos de duas em cada cinco sobrevivem após cinco anos. Mesmo assim, as micro e pequenas empresas representam 27% do PIB nacional, 52% dos empregos formais e 40% da massa salarial. A Maná, portanto, é mais que um caso de sucesso individual: é parte de uma engrenagem essencial para o desenvolvimento do país.

Ser mulher e empreender no sertão
Se a escassez de recursos já seria obstáculo suficiente, Flávia precisou enfrentar outra barreira: o preconceito de gênero. “Já vivi situações em que minha opinião foi ignorada simplesmente por ser ‘a esposa do dono’. Muitas vezes procuravam meu marido, mesmo quando quem tomava as decisões era eu”, relata.
Os dados confirmam essa desigualdade: mulheres ganham, em média, 21% menos que homens no trabalho por conta própria. Entre mulheres negras, o cenário é ainda mais duro. Para Flávia, vencer esse preconceito exigiu coragem e constância. “Estar à frente da Maná é uma conquista diária. Quero mostrar que é possível empreender, sendo mulher e sendo do interior.”

O simples que virou tradição
Mais do que o crescimento econômico, a empresária se emociona ao ver os biscoitos Maná se tornarem parte da vida das pessoas. “O mais marcante é perceber nossos biscoitos nas mesas das famílias, carregando afeto, memória e identidade. É ali que vejo que estamos no caminho certo.”
Nascida no sertão, a marca hoje é um patrimônio afetivo para consumidores muito além de Alagoas, carregando em cada embalagem a força da tradição e a criatividade da região.
O futuro da Maná
O próximo passo é ampliar a distribuição nacional sem perder a essência. “Quero ver a Maná crescer ainda mais, mas sempre mantendo o que nos trouxe até aqui. Meu maior desejo é provar que é possível vencer com honestidade, trabalho e fé — mesmo começando do zero, mesmo sendo mulher, mesmo estando no sertão.”








