
Por Fernando Manfio, criador da Cultura Decisiva*
O sistema de crédito brasileiro enfrenta um dos momentos mais delicados de sua história recente. A inadimplência cresce de forma constante e pressiona os custos das empresas em um cenário já marcado por margens estreitas. Segundo o Banco Central, a taxa média de inadimplência de crédito para pessoas físicas ultrapassa 5%, chegando a mais de 30% no rotativo do cartão. Entre pequenas e médias empresas, os atrasos superiores a 90 dias rondam 6%. Esses números revelam não apenas a fragilidade da economia, mas também a urgência de repensar como as organizações gerenciam riscos e tomam decisões.
Ao mesmo tempo, a Inteligência Artificial avança rapidamente nos processos de crédito e cobrança. Ferramentas automatizadas assumem funções estratégicas, desde a análise de dados até o atendimento ao cliente. Sem preparo adequado, porém, a tecnologia pode apenas reproduzir ineficiências históricas ou até amplificar vieses presentes nas decisões humanas. O desafio, portanto, não está apenas em coletar informações, mas em qualificar dados e atribuir pesos corretos a cada variável, transformando-os em decisões equilibradas e sustentáveis.
É nesse contexto que a consultoria em gestão de riscos se torna estratégica. Um olhar externo especializado ajuda empresas a revisarem modelos ultrapassados, muitas vezes invisíveis a quem está imerso no dia a dia da operação. Estudos de mercado indicam que organizações que revisam seus modelos de risco com apoio consultivo conseguem reduzir perdas em até 20% e aumentar a eficiência de cobrança em mais de 30% (dados setoriais compilados pela MoOve On Power Decisions). O impacto é não apenas financeiro, mas também estratégico, criando uma cultura de decisões mais consciente e adaptada às transformações tecnológicas.
Alguns críticos defendem que a adoção rápida da Inteligência Artificial seria suficiente para modernizar processos e reduzir custos. A experiência mostra, entretanto, que tecnologia sem estratégia aumenta riscos. Se a gestão de dados e a calibragem de algoritmos não forem orientadas por especialistas em risco, empresas podem automatizar decisões equivocadas em escala, comprometendo resultados financeiros e reputação.
O paralelo entre gestão de riscos e gestão de decisões é inevitável. Ambos exigem análise de informações, compreensão de cenários e atribuição adequada de relevância a cada indicador. Diante da aceleração tecnológica, a urgência vai além das finanças: envolve escolhas culturais e éticas. Empresas que não evoluírem nesse aspecto tendem a perder competitividade para concorrentes mais ágeis e conscientes.
O futuro do crédito e da cobrança no Brasil dependerá da capacidade de unir inteligência humana e artificial em decisões consistentes. Consultorias de gestão de riscos desempenham papel essencial nesse processo, não apenas pela técnica, mas por oferecer visão ampla do que não é perceptível internamente. Em um ambiente de inadimplência elevada e revolução digital, transformar risco em oportunidade e tecnologia em vantagem sustentável será a chave para a sobrevivência.
*Fernando Manfio é engenheiro, especialista em gestão de riscos, mentor de líderes e criador da metodologia Cultura Decisiva, que integra neurociência, inteligência emocional e estratégia para transformar padrões inconscientes de decisão em alta performance organizacional.








