*Por João Ricardo Chamone Maciel
Quem dirige com frequência sabe que nem todo dano acontece em grandes acidentes. Muitas vezes, ele surge em situações comuns do dia a dia. Uma porta que bate no estacionamento do mercado, uma chuva de granizo no fim da tarde, uma bola que acerta a lataria enquanto crianças brincam na rua ou até uma fruta que cai sobre o teto podem deixar marcas que parecem insignificantes à primeira vista. Justamente por parecerem pequenas, essas avarias costumam ser ignoradas.
Ao longo dos meus mais de 15 anos trabalhando com recuperação estética automotiva, percebi que muitos proprietários só voltam a prestar atenção nesses amassados quando decidem vender ou trocar de veículo. É nesse momento que um detalhe aparentemente simples passa a ter impacto financeiro.
Já acompanhei situações em que o carro permaneceu anos com pequenas marcas espalhadas pela lataria porque o proprietário acreditava que elas não mereciam atenção. Quando chegou a hora da negociação, porém, aqueles sinais de desgaste acabaram transmitindo uma sensação de descuido que influenciou diretamente a percepção do comprador.
O mercado automotivo brasileiro passou por mudanças importantes nos últimos anos. Com o aumento dos preços dos veículos novos e a piora das condições de crédito, muitas famílias passaram a permanecer mais tempo com o mesmo carro. A Pesquisa da Frota Circulante 2026, do Sindipeças, divulgada em maio de 2026, mostra que a idade média dos automóveis em circulação no país atingiu 11 anos e 5 meses em 2025. O levantamento confirma a tendência de envelhecimento da frota brasileira, impulsionada pelo alto custo dos veículos novos e pelo maior tempo de permanência dos automóveis nas mãos dos proprietários. Com os carros ficando mais tempo em uso, cresce também a necessidade de manutenção e cuidados para preservar seu estado de conservação (SINDIPEÇAS. Relatório da Frota Circulante 2026. São Paulo: Sindipeças, 2026).
Essa mudança ajuda a explicar por que a conservação passou a ter mais peso nas decisões dos motoristas. Quando um automóvel permanece mais tempo com a mesma família, preservar suas condições deixa de ser apenas uma questão estética e passa a integrar a gestão do patrimônio.
A atenção dos consumidores à manutenção dos veículos também aumentou nos últimos anos. Pesquisa da Webmotors realizada com 500 brasileiros aponta que 73% dos proprietários realizam manutenção automotiva pelo menos uma vez por ano. O levantamento indica que os motoristas têm dedicado mais atenção aos cuidados com seus carros, sobretudo diante da alta nos preços dos veículos novos (WEBMOTORS. Hábitos de manutenção automotiva dos brasileiros, 2024).
O mercado de usados e seminovos também ganhou relevância para quem pretende trocar de veículo. Dados da Fenauto mostram que 18,5 milhões de veículos usados e seminovos foram comercializados no Brasil em 2025, estabelecendo um recorde histórico para o setor. Em um mercado desse tamanho, aspectos relacionados à conservação e à aparência do carro costumam influenciar a percepção de valor durante uma negociação.
Por isso, pequenos danos acabam assumindo um peso maior do que muitos imaginam. Um amassado provocado por uma porta de estacionamento dificilmente compromete a segurança do carro. O mesmo acontece com muitos impactos causados por granizo ou objetos leves. O problema está na forma como esses danos são tratados ao longo do tempo.
Muitas pessoas adiam o reparo por meses ou até anos. Outras recorrem a métodos improvisados encontrados na internet ou optam por intervenções desnecessárias que alteram características originais da peça. O resultado costuma aparecer justamente quando o veículo é colocado à venda.
Hoje, compradores e lojistas observam cada vez mais aspectos relacionados à conservação e à originalidade do automóvel. Em muitos casos, um carro bem cuidado transmite mais confiança do que outro com histórico de reparos visíveis ou acabamento inconsistente. É comum que qualquer amassado seja associado automaticamente à funilaria tradicional. Em diversas situações, porém, danos leves podem ser corrigidos sem necessidade de repintura, preservando as características originais da peça.
A diferença parece apenas estética, mas frequentemente influencia a percepção de valor do veículo. Quanto mais próximo das condições originais ele permanece, maior tende a ser a confiança de quem está avaliando a compra. Isso não significa que todo pequeno dano precise gerar preocupação excessiva, apenas que ignorá-lo raramente é a decisão mais econômica.
Em um momento em que os brasileiros permanecem mais tempo com seus veículos e acompanham de perto seu valor de mercado, cuidar de pequenos detalhes deixou de ser apenas uma questão de aparência. Tornou-se uma forma de preservar um patrimônio que continua ocupando espaço importante no orçamento das famílias.
*João Ricardo Chamone Maciel é especialista em martelinho de ouro com atuação voltada à recuperação estética automotiva e preservação da originalidade dos veículos. Com mais de 15 anos de experiência no setor, construiu trajetória atendendo locadoras, oficinas e clientes particulares, com foco em reparos sem repintura e conservação do valor de revenda dos automóveis.








