Tecnologia

A decisão da China sobre IA nas escolas expõe um desafio para a educação brasileira

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Embora 84% dos estudantes brasileiros já utilizem inteligência artificial nos estudos, apenas 32% receberam orientação da escola sobre como usar a tecnologia

A decisão da China de incluir inteligência artificial em todas as etapas da educação básica acende um alerta para outros países: a discussão sobre IA nas escolas já não está mais restrita ao uso de ferramentas digitais. O desafio agora é preparar crianças e adolescentes para compreender como esses sistemas funcionam, avaliar seus impactos e desenvolver competências que serão exigidas em um mercado cada vez mais orientado pela tecnologia.

Em abril deste ano, o Ministério da Educação chinês anunciou o plano nacional “AI+Educação”, que prevê a universalização da alfabetização em inteligência artificial até 2030. A medida amplia uma política iniciada em 2025, quando estudantes de 6 a 15 anos passaram a ter contato obrigatório com conteúdos relacionados ao tema.

Diferentemente da abordagem mais comum em muitas escolas, centrada no uso de ferramentas como chatbots e assistentes virtuais, o modelo chinês busca ensinar os fundamentos da tecnologia. A proposta inclui lógica computacional, dados, pensamento algorítmico e programação de forma progressiva, desde os primeiros anos até as etapas mais avançadas da formação.

No Brasil, a realidade mostra que os estudantes já incorporaram a IA ao cotidiano escolar, mas ainda com pouca orientação estruturada. Pesquisa do Observatório Fundação Itaú aponta que 84% dos alunos brasileiros já utilizaram recursos de inteligência artificial no contexto escolar.

Entre eles, 90% recorrem à tecnologia para pesquisas e esclarecimento de dúvidas, enquanto 80% a utilizam para realizar atividades. Apesar disso, apenas 32% afirmam ter recebido orientação da escola sobre o uso adequado dessas ferramentas.

Para Marco Giroto, fundador da SuperGeeks, escola especializada no desenvolvimento de competências tecnológicas, esse contraste mostra que o debate precisa avançar.

“Os estudantes já estão usando inteligência artificial. A questão é se eles estão apenas consumindo respostas prontas ou aprendendo a entender como essas respostas são produzidas. A diferença entre usar uma ferramenta e compreender sua lógica será cada vez mais importante para a formação das novas gerações”, afirma.

O movimento também acompanha mudanças previstas para o mercado de trabalho. Segundo o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades exigidas pelas empresas deverão mudar até 2030, enquanto 59% dos trabalhadores precisarão passar por processos de requalificação. Entre as competências com maior crescimento projetado estão alfabetização tecnológica, inteligência artificial, pensamento analítico, adaptabilidade e aprendizado contínuo.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em estudo publicado em junho de 2026, reforça essa direção ao destacar que o desafio não está apenas em formar especialistas em IA, mas em ampliar a alfabetização sobre a tecnologia e desenvolver competências que permitam à população compreender, utilizar e trabalhar de forma crítica com esses sistemas.

Segundo Giroto, ensinar IA na infância não significa formar programadores desde cedo, mas desenvolver raciocínio lógico, pensamento crítico, criatividade e capacidade de resolver problemas.

“A inteligência artificial vai mudar muitas profissões, mas isso não significa que toda criança precise se tornar especialista em tecnologia. O ponto é prepará-la para entender o mundo em que vai viver. Quem compreende a lógica por trás da IA tem mais condições de questionar, criar, tomar decisões melhores e participar de forma ativa das transformações que virão”, conclui.

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