Por Dr. Joaquim Menezes, Instituto Evollution
Vivemos uma revolução no tratamento da obesidade. Medicamentos como a tirzepatida mudaram radicalmente o cenário do emagrecimento, oferecendo resultados que, até poucos anos atrás, pareciam inalcançáveis sem cirurgia bariátrica. Pela primeira vez, a medicina dispõe de uma ferramenta capaz de promover perdas de peso expressivas de forma relativamente simples e segura.
Mas, como costuma acontecer na medicina, existe uma pergunta mais importante do que “quanto peso foi perdido”: o que exatamente foi perdido? A resposta para essa pergunta pode determinar não apenas o sucesso do tratamento, mas também a qualidade de vida e a longevidade do paciente.
Durante o congresso da Associação Americana de Diabetes (ADA), os resultados do estudo SURMOUNT-1 chamaram atenção ao demonstrar o potencial da tirzepatida no tratamento da obesidade. Conforme relatado pelos pesquisadores, pacientes tratados com a dose de 15 mg apresentaram perda média de peso de 20,9% em 72 semanas, resultado considerado um marco na história do tratamento clínico da obesidade.
No entanto, uma análise mais profunda dos dados trouxe um alerta importante. O estudo de composição corporal derivado do SURMOUNT-1 mostrou que, embora aproximadamente 75% da perda de peso tenha ocorrido às custas da gordura corporal, cerca de 25% corresponderam à perda de massa magra, incluindo tecido muscular.
Esse dado é frequentemente tratado como aceitável na literatura médica. Eu discordo.
A medicina da longevidade nos ensina que o músculo não é apenas uma estrutura responsável por movimentos ou aparência física. O músculo é um dos tecidos mais importantes do organismo humano. É um órgão metabólico, hormonal e funcional.
Existe uma frase frequentemente citada pelos especialistas em envelhecimento saudável: “envelhecemos pelos músculos”.
Não é exagero.
Diversos estudos mostram que a massa muscular é um dos mais fortes preditores independentes de mortalidade. Em muitos casos, ela é mais relevante para prever expectativa de vida do que o próprio Índice de Massa Corporal (IMC). Pessoas com mais massa muscular tendem a sobreviver melhor a doenças graves, manter independência funcional por mais tempo e apresentar menor risco de hospitalizações e fragilidade física.
O problema é que a perda muscular já acontece naturalmente com o envelhecimento. A partir da meia-idade, ocorre uma redução gradual da massa muscular, fenômeno conhecido como sarcopenia. Quando um paciente perde vários quilos de músculo durante um processo de emagrecimento acelerado, ele pode estar antecipando um processo que normalmente levaria anos para acontecer.
É aí que surge o paradoxo.
Ao mesmo tempo em que reduz gordura, melhora exames laboratoriais e diminui riscos associados à obesidade, o paciente pode estar renunciando a um dos seus maiores patrimônios biológicos: a musculatura.
Felizmente, isso não precisa acontecer.
Um dos aspectos mais importantes da nova geração de tratamentos para obesidade é compreender que a medicação não pode ser encarada como protagonista única do processo. Ela é uma ferramenta. O resultado depende da estratégia utilizada.
Um estudo recente citado na literatura sobre agonistas de GLP-1 e GIP demonstrou que é possível preservar — e até aumentar — a massa muscular durante o emagrecimento quando o tratamento é acompanhado por protocolos adequados de exercício e nutrição.
Na prática clínica, três pilares são fundamentais.
O primeiro é o treinamento de força. Caminhadas e atividades aeróbicas trazem inúmeros benefícios cardiovasculares, mas não são suficientes para sinalizar ao organismo que o músculo deve ser preservado. A musculação continua sendo a intervenção mais eficiente para proteger a massa muscular durante a perda de peso.
O segundo é a ingestão adequada de proteínas. Com a redução importante do apetite promovida pela tirzepatida, muitos pacientes passam a comer muito menos do que precisam. Isso inclui proteínas, nutriente essencial para manutenção da musculatura.
O terceiro pilar é a personalização do tratamento. Avaliações periódicas de composição corporal, suplementação quando necessária e ajustes individuais são medidas que fazem diferença significativa nos resultados de longo prazo.O futuro do tratamento da obesidade não será medido apenas pela quantidade de gordura eliminada.
Será medido pela capacidade de reduzir gordura enquanto preservamos força, mobilidade, independência funcional e saúde metabólica.
A balança mostra quantos quilos foram embora.
A composição corporal mostra o que realmente importa.
Por isso, acredito que o verdadeiro sucesso do emagrecimento não está em criar pessoas mais leves, mas em construir pessoas metabolicamente mais fortes. Porque, no final das contas, a longevidade não depende apenas de viver mais anos.
Depende de chegar a esses anos com autonomia, energia e qualidade de vida.E, para isso, preservar músculos pode ser tão importante quanto perder gordura.








