Investimentos

IA nos investimentos: por que o acesso facilitado não substitui o aconselhamento financeiro?

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10% dos investidores no Brasil utilizam a inteligência artificial para tomada de decisão nas finanças; entenda

A inteligência artificial já faz parte da rotina de decisão financeira de 10% dos investidores no país. De acordo com a pesquisa Raio-X do Investidor, desenvolvida pela Anbima em parceria com o Datafolha, esse contingente de 9% que utiliza assistentes virtuais para buscar informações e gerenciar aportes é composto, majoritariamente, por um público jovem e de maior poder aquisitivo.

A adesão à tecnologia é liderada por duas gerações conectadas:

  • Geração Z (16 a 29 anos): representa 49% dos usuários de IA no setor;
  • Millennials (30 a 44 anos): respondem por 36% desse mercado.

Sob o aspecto socioeconômico, a pesquisa revela que 58% desses investidores pertencem às classes A e B. Além disso, o perfil desse público é predominantemente arrojado: 77% deles integram a categoria “Perfil Diversifica” da Anbima, grupo caracterizado por ir além da caderneta de poupança e buscar ativamente a alocação em múltiplos ativos financeiros.

No entanto, essa rápida popularização traz à tona um debate crucial sobre os limites da tecnologia no setor de capitais. Segundo Carlos Akira Sato, co-founder da Syscapital e especialista em Mercados Regulados, Educação Financeira e Inovação, o mercado vive hoje um paradoxo inédito: embora a IA democratize o acesso a dados complexos, ela jamais deve ser confundida com uma orientação financeira personalizada, segura e devidamente regulada.

“Historicamente, o mercado de capitais brasileiro foi marcado por uma forte assimetria de informação, restringindo análises sofisticadas e conceitos de diversificação a um público seleto. Sob essa ótica, a expansão das ferramentas de IA deve ser celebrada, pois funciona como uma poderosa alavanca de inclusão financeira ao traduzir termos técnicos e simular cenários de forma simples para o investidor comum. Essa facilidade ajuda a reduzir a dependência de conteúdos superficiais de redes sociais, permitindo que o cidadão compreenda melhor o funcionamento de produtos que vão do Tesouro Direto à previdência privada”, explica.

Contudo, a facilidade de obter respostas rápidas mascara uma fronteira regulatória e técnica bastante delicada. “Acesso à informação não é o mesmo que aconselhamento financeiro, e educação financeira não substitui o suitability”, pondera Akira. Uma resposta estruturada de forma convincente por uma máquina pode sugerir uma falsa sensação de segurança, mas peca ao ignorar variáveis vitais que compõem o perfil de risco individual de cada investidor — como sua tolerância a perdas, horizonte de tempo, objetivos patrimoniais e nível real de endividamento.

O risco das alucinações da IA e o papel do Suitability

Nesse cenário de transição, a Resolução CVM nº 30 ganha ainda mais centralidade ao exigir a verificação rigorosa da adequação de produtos e serviços ao perfil do cliente (suitability). A inteligência artificial não elimina esse dever legal; pelo contrário, torna-o indispensável, especialmente diante da possibilidade de a ferramenta “alucinar”. Em termos práticos, os modelos de linguagem podem gerar respostas tecnicamente incorretas ou desatualizadas com enorme fluidez e segurança visual, o que no campo financeiro pode induzir o usuário a erros patrimoniais graves e perdas reais.

Para reduzir esses riscos, Akira aponta que o mercado não deve escolher entre inovação e regulação, mas sim exigir governança e transparência das instituições financeiras que adotam essas tecnologias em seus canais. “É fundamental que as plataformas deixem claro quando estão educando, distribuindo, assessorando ou recomendando ativos. O investidor, por sua vez, precisa ser instruído para interagir com esses sistemas inteligentes de maneira crítica, compreendendo que as regras que disciplinam analistas, consultores e assessores existem justamente para preservar o patrimônio do cliente”, explica.

O futuro do mercado financeiro digital brasileiro dependerá de como o ecossistema equilibrará essa balança entre tecnologia e responsabilidade. “A inteligência artificial pode ajudar o brasileiro a investir melhor. Mas, mal utilizada, também pode induzi-lo a investir errado. No mercado financeiro, uma alucinação da IA não é apenas um erro técnico. Pode ser uma decisão patrimonial equivocada na vida real”, conclui. 

Fonte:

Carlos Akira Sato – Co-Founder da Syscapital e especialista em Mercados Regulados, Inovação, Tokenização de Ativos, Educação Financeira, Governança e Inovação. Vice-Presidente de Relações Institucionais da PAGOS (Associação de Gestão de Meios de Pagamentos Eletrônicos).

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