Enquanto produção de aço recua e comércio eletrônico registra alta de quase 17%, empresas de transporte ampliam atuação para reduzir dependência do desempenho de um único setor
O caminhão que ontem transportava produtos ligados à indústria pesada pode fazer parte, amanhã, de uma operação estruturada para atender o comércio eletrônico. Em um cenário no qual diferentes setores da economia avançam em ritmos distintos, a diversificação começa a ganhar importância também entre as transportadoras.
Os números de 2026 ajudam a mostrar esse contraste. No primeiro semestre, a produção brasileira de aço bruto somou cerca de 16,3 milhões de toneladas, queda de 1,5% em relação ao mesmo período de 2025. A produção de laminados recuou 4,4% e as vendas ao mercado interno tiveram retração de 0,2%, segundo dados do Instituto Aço Brasil.
Na outra ponta, o comércio eletrônico vive um momento diferente. O e-commerce brasileiro movimentou R$ 208 bilhões entre janeiro e junho deste ano, crescimento de 16,9%. Mais significativo para a cadeia logística é o avanço do número de pedidos: foram 756 milhões, alta de 34,8% sobre o primeiro semestre de 2025, segundo levantamento da Confi, por meio da Neotrust e da Aftersale, em parceria com o E-Commerce Brasil.
O movimento tende a continuar no segundo semestre. A projeção é de R$ 254 bilhões em vendas online no período, 20% acima do registrado um ano antes.
Para o transporte rodoviário de cargas, diferenças como essas ajudam a explicar por que depender excessivamente de uma única atividade econômica pode representar um risco. Quando a produção de determinada indústria desacelera, o impacto chega também à demanda por fretes. Ao mesmo tempo, setores em expansão abrem novas rotas e oportunidades, mas entrar neles exige muito mais do que simplesmente deslocar caminhões.
“O transporte acompanha a economia muito rapidamente. Um segmento pode estar muito aquecido em determinado momento e, pouco tempo depois, outro passa a oferecer mais oportunidades. Por isso, ter capacidade para atender diferentes mercados ajuda a empresa a atravessar essas oscilações e continuar crescendo”, afirma Leonardo Busin, CEO da Buzin Transportes.
De uma operação concentrada à diversificação
A própria trajetória da Buzin exemplifica essa transformação. A empresa gaúcha, fundada em 1967, teve durante décadas sua operação fortemente concentrada na siderurgia. Até 2018, o segmento representava praticamente o foco da companhia. Com a entrada da terceira geração na administração, a empresa começou a ampliar o leque de mercados atendidos.
Hoje, além da siderurgia, a companhia atua em segmentos como petroquímico, agro, alimentos e bebidas, papel e celulose, construção civil, saúde e bem-estar e e-commerce. A diversificação permite que a operação acompanhe mais de perto os diferentes ciclos da economia.
Um dos movimentos mais recentes aconteceu justamente em direção às compras online. No final de 2025, a Buzin entrou no segmento de e-commerce e adquiriu 200 conjuntos de baú para estruturar a nova operação.
A mudança ilustra também a complexidade existente por trás da diversificação. Uma transportadora tradicionalmente acostumada a movimentar cargas industriais não consegue simplesmente utilizar a mesma estrutura para atender outro mercado. Mudam equipamentos, rotas, dinâmica operacional, contratação e até o perfil dos motoristas.
“Entrar em um segmento novo é quase montar uma empresa dentro da própria empresa. O baú, por exemplo, exige uma operação diferente daquela que já conhecíamos na carga seca. É preciso ter as pessoas certas, estruturar processos e entender a dinâmica daquele cliente antes de crescer”, explica Busin.
Mais pedidos também significam mais pressão logística
No caso do e-commerce, o crescimento de 34,8% no número de pedidos chama atenção porque supera com folga a alta de 16,9% do faturamento. Ao mesmo tempo, o tíquete médio caiu 13,3%, para R$ 275,50. O consumidor, portanto, está fazendo compras menores e com maior frequência.
Para a cadeia logística, essa mudança importa. Cada novo pedido demanda processos de separação, embalagem, transporte, entrega e, eventualmente, logística reversa. O próprio levantamento da Confi aponta que o aumento da recorrência amplia a pressão operacional sobre varejistas e sua cadeia.
Para Busin, esse cenário reforça a necessidade de as transportadoras olharem para a composição da própria carteira de negócios. “Não significa abandonar os setores tradicionais. A siderurgia continua sendo extremamente importante para nós. A questão é não ficar dependente de um único mercado. Quanto mais preparada a transportadora estiver para atuar em diferentes segmentos, maior é sua capacidade de reagir quando a economia muda de direção”, conclui.








