Especialista desmistifica o uso da rede profissional para quem ainda tem pouca ou nenhuma experiência e dá dicas práticas para criar um perfil atrativo
O Brasil ultrapassou a marca de 100 milhões de perfis no LinkedIn, consolidando-se como o terceiro maior mercado da rede no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. Mais revelador que o número total, porém, é quem está puxando esse crescimento: a Geração Z já tem uma presença proporcionalmente maior na plataforma do que na população em geral, um sinal de que o LinkedIn deixou de ser território de profissionais seniores para virar ferramenta de início de carreira.
Mesmo assim, para quem está no começo, buscando vagas ou já atuando como Jovem Aprendiz ou estagiário, e ainda não acumula grandes conquistas no currículo, a dúvida persiste: vale a pena criar um perfil sem ter experiência profissional sólida?
A resposta, segundo Jéssica Gondim, gerente de gestão de contratos da Companhia de Estágios, é um sim categórico, e a mudança de comportamento já é visível na prática. “Há cinco ou seis anos ainda existia a ideia de que estagiário não precisava estar no LinkedIn, que era coisa para cargos mais altos. Isso foi se quebrando aos poucos. Hoje vemos aprendizes super engajados na plataforma, postando os projetos que fazem, as aulas, a rotina. Eles entenderam o quanto a visibilidade profissional desde o início pode fazer diferença”, afirma.
O que o recrutador realmente busca em quem não tem experiência
Para quem está buscando a primeira oportunidade, uma das principais dúvidas é: “O que eu posso colocar no meu LinkedIn se ainda não tenho experiência profissional?” A resposta, segundo a especialista, está justamente em mostrar as experiências e os aprendizados que já fazem parte da trajetória do jovem, mesmo que eles ainda não tenham acontecido dentro de uma empresa. “O LinkedIn funciona como uma vitrine do seu movimento profissional e acadêmico. Você não precisa ter uma carreira longa para ter um perfil atrativo”, explica Jéssica.
Atividades extracurriculares contam pontos: projetos da faculdade, participação em atléticas, voluntariado em uma igreja ou associação, organização de uma festa junina do zero, até um pequeno negócio de venda de doces no Instagram. “São vivências que proporcionam o desenvolvimento de comportamentos e habilidades que vão contribuir para a entrada no mercado de trabalho”, diz.
Há um detalhe que faz muita diferença: detalhar as atividades exercidas, e não apenas o cargo, pode aumentar as chances do perfil aparecer nas buscas dos recrutadores. “Tem pessoas que colocam só o cargo e a empresa: ‘sou estagiária na Companhia de Estágios’. Eu sempre dou a dica: coloquem as atividades que vocês exercem, porque isso ajuda o seu perfil ser visualizado pelos recrutadores por meio das palavras-chave. O recrutador busca por termos específicos, e os perfis que contêm essas palavras têm mais chances de aparecer nas buscas”, afirma Jéssica.
A seguir, confira cinco dicas para construir um perfil de início de carreira.
1. Construa sua narrativa com o que você já tem
Cursos complementares, como Excel, idiomas e inteligência emocional, participação em empresa júnior, trabalho de conclusão de disciplina, apresentações acadêmicas: tudo isso pode ajudar a construir a narrativa profissional de quem ainda está no início da carreira. Plataformas e cursos gratuitos de instituições de ensino geram certificados que podem ser anexados diretamente ao perfil. Portfólios feitos no Canva ou Figma, e até links para trabalhos práticos, enriquecem a apresentação. O campo de links, inclusive, aceita vídeos, PDFs e artigos, e é um recurso pouco explorado pelos candidatos.
Esses recursos ajudam o recrutador a enxergar, além da formação, o que o jovem já fez, quais habilidades desenvolveu e quais interesses está construindo para a carreira, mesmo antes de ter uma experiência profissional formal.
2. Mantenha os dados atualizados e alinhados
Divergência entre currículo e LinkedIn levanta bandeira vermelha. “Se no currículo está que você é estagiário numa determinada empresa e no LinkedIn não aparece essa experiência, fica desconexo. Tem recrutador que confere justamente isso: se a pessoa realmente está com discurso alinhado”, alerta a especialista.
A atualização também precisa acompanhar as mudanças da trajetória. Entrou em um estágio novo, concluiu um curso, mudou de área de interesse ou participou de um novo projeto? Atualize o perfil. Um perfil desatualizado pode não refletir o momento atual da trajetória acadêmica e profissional do candidato.
3. Evite o “perfil fantasma”
Nome incompleto, sem foto, sem formação: um perfil criado só para se candidatar a uma vaga específica passa uma impressão negativa. “Reserve um tempo para colocar uma foto com fundo neutro e escrever um breve resumo: quem você é, o que estuda, quais suas áreas de interesse. Mesmo que as informações sejam mínimas, já mostram um caminho e tiram a dúvida do recrutador sobre seu perfil”, diz Jéssica.
Para quem ainda não tem muita experiência, o título do LinkedIn pode ser uma oportunidade de deixar claro, logo de cara, quem é o candidato e quais oportunidades ele busca. A ideia não é criar um título cheio de palavras-chave sem sentido, mas facilitar a compreensão do recrutador sobre o perfil, combinando formação, área de interesse e objetivo profissional. Por exemplo, no lugar de escrever “Estudante de Administração”, dar mais detalhes como “Estudante de Administração | Interesse em Recursos Humanos e Gestão | Buscando oportunidade de estágio”.
4. Engajar é mais importante do que postar
Boa parte dos jovens evita a rede por acreditar que precisa produzir conteúdo constantemente. Mas manter uma presença ativa na plataforma não significa, necessariamente, publicar posts. “Curtir uma publicação, comentar, dar os parabéns por uma promoção ou acompanhar conteúdos da sua área já são estratégias, isso já dá engajamento para a conta e visibilidade para recrutadores. Você não precisa criar conteúdo para estar ativo na rede”, explica.
5. Use a rede para pesquisar o mercado e fazer networking consciente
Seguir empresas-alvo é uma das dicas mais práticas: acompanhar publicações permite identificar padrões de contratação, por exemplo, um programa de estágio que se repete sempre em dezembro, requisitos recorrentes, como exigência de inglês ou demais conhecimentos técnicos, informações que podem virar diferencial competitivo se o candidato começar a se preparar com antecedência. Levar esse tipo de repertório para uma entrevista também pode fazer diferença. Segundo a especialista, demonstrar que o candidato acompanha o que a empresa comunica publicamente mostra interesse e preparo para a conversa.
Também vale seguir recrutadores e profissionais da área desejada: isso alimenta o feed com conteúdo relevante e amplia a rede de conexões, o que aumenta as chances de o perfil aparecer para quem está contratando. Já a abordagem por mensagem direta pede bom senso: “Para tirar dúvidas sobre a rotina de uma vaga, é melhor tentar se conectar com estagiários, assistentes ou recrutadores, que costumam ser mais abertos a essa troca”, recomenda Jéssica.
Outro recurso pouco usado é a ativação de notificações para vagas de empresas específicas, um atalho direto para quem já sabe onde quer estar.
Faz diferença de verdade?
Para a especialista, estar no início de carreira e possuir uma conta no Linkedin é um sinal de proatividade e interação com o mundo corporativo. “É mais uma informação para o recrutador conhecer o candidato. É uma iniciativa que deixa claro que a pessoa está se movimentando, buscando informações, novas conexões e tentando se destacar no mercado de trabalho”, diz Jéssica.








