Estudos mostram que a cirurgia pode melhorar atividades do dia a dia, participação social e bem-estar emocional; no Brasil, centenas de milhares de pessoas aguardam pelo procedimento
Aos poucos, algumas coisas deixam de fazer parte da rotina. Sair sozinho fica mais difícil, ler exige esforço, reconhecer um rosto à distância já não é tão simples e até caminhar por um lugar conhecido pode exigir mais atenção. Nem sempre a família percebe, mas, por trás dessas mudanças, pode estar uma perda visual provocada pela catarata.
O impacto não fica restrito à capacidade de enxergar. Um estudo com 1.234 idosos com cegueira bilateral na Etiópia acompanhou os participantes por um ano e encontrou efeitos que ajudam a dimensionar o problema: entre os pacientes submetidos à cirurgia, a capacidade de realizar atividades da vida diária aumentou 30%, enquanto o índice de participação social cresceu 0,31 desvio-padrão. Os sintomas de depressão também caíram 17%.
Os resultados ajudam a explicar por que a cirurgia de catarata pode representar mais do que a recuperação da nitidez das imagens. Para alguns idosos, voltar a enxergar melhor significa recuperar condições para fazer coisas que foram desaparecendo da rotina.
Quando a visão começa a limitar a independência
A catarata ocorre quando o cristalino, a lente natural do olho, perde transparência. A visão pode ficar embaçada, com redução de contraste, dificuldade para enxergar em ambientes pouco iluminados e maior sensibilidade à luz. Como a evolução costuma ser gradual, o paciente muitas vezes se adapta às limitações sem perceber o quanto elas já interferem na própria vida.
No Brasil, o problema também tem uma dimensão de acesso. Em uma matéria publicada pela Revista Veja, é possível ver que cerca de 600 mil pessoas aguardavam pela cirurgia de catarata em janeiro de 2025, com espera média de 137 dias, embora o tempo variasse entre as regiões. A fila representa mais do que um desafio administrativo: enquanto aguardam, pacientes podem continuar convivendo com uma limitação visual que interfere em atividades básicas e na independência.
A relação com as quedas também merece atenção. Uma meta-análise que reuniu oito estudos e 1.834 idosos encontrou associação entre a primeira cirurgia de catarata e uma redução de 32% na frequência de quedas. Em um dos ensaios clínicos randomizados incluídos na análise, a redução chegou a 34%.
Isso não significa que a cirurgia elimine o risco de queda. Equilíbrio, força muscular, medicamentos, doenças neurológicas e condições do ambiente também influenciam esse risco. Estudos mais recentes, inclusive, encontraram resultados diferentes. O ponto central é que a recuperação visual pode ser uma das peças de um conjunto maior de medidas para preservar a mobilidade na velhice.
É importante não transformar essa relação em uma equação simples: catarata não significa necessariamente depressão, e a cirurgia não deve ser apresentada como tratamento para transtornos psiquiátricos. A saúde mental na velhice depende de diversos fatores. O que os estudos ajudam a mostrar é que recuperar a função visual pode repercutir também sobre aspectos emocionais e sociais da vida.
“Quando o paciente volta a enxergar melhor, muitas vezes ele não recupera apenas a visão. Recupera segurança para circular, realizar atividades e participar de situações que havia deixado de viver. É por isso que o tratamento da catarata precisa ser pensado também sob a perspectiva da autonomia.”
Tecnologia torna o planejamento mais individualizado
A recuperação visual também acompanha a evolução dos recursos utilizados na oftalmologia. As inovações em oftalmologia ampliam as possibilidades de avaliação, planejamento cirúrgico e escolha das lentes intraoculares, permitindo que a indicação seja cada vez mais individualizada.
Exames de imagem e ferramentas de planejamento ajudam o oftalmologista a avaliar as características do olho antes do procedimento. A escolha da lente intraocular, por sua vez, leva em conta fatores como as necessidades visuais, as condições oculares e as expectativas de cada paciente.
O objetivo não é simplesmente alcançar uma determinada acuidade visual, mas definir uma estratégia compatível com a rotina de quem será operado.
“A tecnologia nos permite planejar a cirurgia com cada vez mais informações, mas o objetivo continua sendo o mesmo: entender o que aquele paciente precisa para recuperar sua função visual e preservar sua qualidade de vida.”
Envelhecer também é continuar participando
A catarata pode fazer parte do envelhecimento, mas a perda visual provocada pela doença não precisa ser encarada como uma consequência inevitável da idade. Quando existe indicação cirúrgica, o tratamento pode melhorar a capacidade de realizar tarefas, ampliar a participação social e contribuir para uma vida mais independente.
No fim, recuperar a visão não significa apenas voltar a enxergar uma imagem com mais nitidez. Pode significar reconhecer um rosto do outro lado da mesa, caminhar com mais segurança, ler uma mensagem sem ajuda ou simplesmente voltar a sair de casa.
É nessa dimensão que a cirurgia de catarata ultrapassa o resultado do exame oftalmológico: ela pode devolver ao idoso parte da autonomia que a perda visual foi, pouco a pouco, tirando da rotina.








