Tecnologia

Funcionários escondem uso de IA enquanto empresas tentam acelerar adoção

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A inteligência artificial já entrou na rotina de trabalho, mas nem sempre pela porta da frente. Pesquisa da Slack com 17.372 profissionais mostra que 48% dos trabalhadores brasileiros se sentem desconfortáveis em admitir aos chefes que utilizam IA em atividades cotidianas. Entre os principais motivos aparecem o medo de serem vistos como trapaceiros, incompetentes ou preguiçosos, enquanto 78% relatam utilizar ferramentas próprias no trabalho, fora das diretrizes oficiais das empresas. O cenário cria uma contradição para organizações que estimulam o ganho de produtividade com IA, mas ainda não conseguiram estabelecer uma relação de confiança em torno de seu uso.

Renato Asse, fundador do ibe.IA e especialista em inteligência artificial aplicada a negócios, acompanha esse processo diretamente dentro das empresas e identifica no uso escondido um problema de governança, e não de comportamento individual. Pioneiro do No Code no Brasil, já implementou agentes de IA em uma empresa com mais de 13 mil colaboradores e treinou mais de 700 organizações. “O uso clandestino não é rebeldia, é ausência de política. Quando a mensagem oficial da empresa é o silêncio, o funcionário assume o pior e continua escondendo. O dado mostra justamente isso: ele não deixa de usar a tecnologia porque a empresa não orientou, ele apenas passa a usá-la por conta própria.”

A dimensão comportamental desse fenômeno também merece atenção. Os profissionais pesquisados não apontam necessariamente uma preocupação com punição formal, mas com a maneira como serão percebidos pelos colegas e superiores. O receio de parecer preguiçoso ou incompetente revela que parte do debate corporativo ainda associa produtividade ao esforço visível empregado para executar uma tarefa, mesmo quando ferramentas digitais já modificaram essa lógica em diversas atividades. Usar IA para estruturar um texto, organizar informações ou acelerar uma tarefa não significa necessariamente transferir para a tecnologia a responsabilidade pelo resultado.

A resistência à substituição também parece estar mudando. Pesquisa Datafolha de 2026 aponta que o percentual de brasileiros que temem ser substituídos por máquinas caiu de 56% para 48% em um ano, enquanto a parcela que não demonstra esse receio passou de 41% para 49%. Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que a aceitação da inteligência artificial possui limites. Enquanto a tecnologia avança como ferramenta de trabalho, 79% dos entrevistados se opõem ao seu uso em decisões de contratação e demissão. A distinção indica que trabalhadores podem incorporar a IA à própria produtividade sem necessariamente aceitar que ela assuma o papel de autoridade sobre suas trajetórias profissionais.

O problema se torna mais concreto quando a utilização acontece fora dos ambientes controlados pela organização. Funcionários que recorrem a contas pessoais podem inserir informações de clientes, documentos internos, contratos ou outros dados corporativos em ferramentas que não foram avaliadas pelos responsáveis pela segurança da empresa. A questão deixa de ser apenas se o profissional deveria ou não usar IA e passa a envolver quem controla os dados, quais ferramentas estão autorizadas e que tipo de informação pode ser processada por sistemas externos. Entre as empresas brasileiras que interromperam ou reverteram implementações de IA em 2026, o levantamento citado no briefing aponta que 39% dos casos envolveram vazamento de dados ou informações pessoais, reforçando a dimensão de segurança que acompanha a expansão dessas tecnologias.

A resposta, nesse contexto, não está necessariamente em proibir ferramentas que já fazem parte da rotina. Uma política de uso de IA precisa ser suficientemente objetiva para orientar decisões que acontecem no cotidiano, desde quais plataformas estão liberadas até quais informações jamais devem ser inseridas e em quais situações o resultado produzido pela tecnologia precisa passar por revisão humana. Quanto mais distante estiver a regra da realidade de quem executa o trabalho, maior tende a ser o espaço para que a tecnologia avance de maneira informal e sem os mesmos critérios aplicados às soluções oficiais.

Também existe uma oportunidade de gestão que costuma passar despercebida. Quando um funcionário encontra sozinho uma maneira eficiente de utilizar IA e mantém essa descoberta restrita à própria rotina, a empresa perde a possibilidade de transformar uma experiência individual em conhecimento coletivo. A tecnologia pode, nesse caso, aumentar a produtividade de uma pessoa sem necessariamente aumentar a capacidade da organização. O desafio da liderança passa a ser identificar essas práticas, avaliar seus riscos e transformar aquilo que funciona individualmente em processos que possam ser compartilhados pelos times.

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