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Creator deixa de vender publicidade e transforma comunidade em negócio

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Com o Guardei no Armário, Samuel Gomes amplia atuação para projetos autorais, conteúdo corporativo e experiências presenciais, mostrando como a relação com a audiência pode abrir novas frentes comerciais

A audiência foi, durante muito tempo, o principal indicador de valor de um creator para o mercado publicitário. Seguidores, visualizações e engajamento orientavam campanhas e definiam o alcance de uma parceria. Com a evolução da creator economy, porém, esse modelo começa a dar espaço a novas possibilidades. Mais do que divulgar produtos e serviços, criadores passam a desenvolver projetos próprios, participar da construção de estratégias e transformar a comunidade que construíram em oportunidades de negócio.

A trajetória de Samuel Gomes, criador do Guardei no Armário, acompanha esse movimento. O que começou como um espaço para compartilhar histórias e promover conversas ganhou novos formatos ao longo dos anos, passando por livros, palestras, projetos corporativos, eventos ao vivo e produções audiovisuais. Hoje, o projeto funciona como uma plataforma de conteúdo e diálogo, conectando diferentes públicos, marcas e experiências.

A expansão começou a ganhar forma em 2015, durante o lançamento independente do primeiro livro de Gomes. O encontro mostrou que o vínculo estabelecido com o público ultrapassava os limites do YouTube e poderia se desdobrar em outras iniciativas. “O livro foi o primeiro passo para expandir esse diálogo. A partir dele, surgiram convites para levar essa discussão para empresas, universidades, eventos e organizações”, afirma.

A partir dessa experiência, o Guardei no Armário passou a ocupar outros espaços. Entre os projetos estão o Guardei no Armário O Talk Show Ao Vivo, no Sesc Consolação, que chega à segunda temporada, e o Guardei no Armário na Estrada. A diversificação dos formatos ampliou as possibilidades de atuação e mostrou que a comunidade poderia acompanhar o projeto para além das publicações nas redes sociais.

Essa mudança também transformou a relação com as marcas. Em vez de atuar somente na execução de campanhas previamente definidas, Gomes passou a participar da concepção dos projetos, contribuindo com ideias, formatos e narrativas alinhados tanto aos objetivos das empresas quanto aos interesses de seu público.

“Isso fez com que eu deixasse de ser apenas um criador contratado para um post e passasse a participar da construção das estratégias de conteúdo. Gosto de entender o objetivo de cada projeto e pensar em como transformá-lo em uma conversa que faça sentido para as pessoas”, explica.

O modelo aparece em iniciativas como o Empreender Conecta, desenvolvido em parceria com o Sebrae, e a série sobre ESG produzida para o Senac São Paulo. Nos dois casos, o conteúdo assume um papel que vai além da divulgação de uma marca, aproximando temas específicos da realidade do público por meio de formatos editoriais e conversas acessíveis.

A mudança acompanha uma discussão importante para o mercado de influência. Com a profissionalização do setor, a entrega de uma publicação patrocinada deixa de ser a única possibilidade de parceria. O creator pode participar desde o desenvolvimento da ideia até a construção de uma experiência, criando projetos com potencial para gerar diferentes pontos de contato com a audiência.

Para Gomes, a credibilidade construída ao longo do tempo é um dos fatores que tornam essa relação possível. “Quando uma marca procura um criador de conteúdo, acredito que ela não está buscando apenas alcance ou bons números de audiência. Ela também busca credibilidade e a confiança que aquele creator construiu com sua comunidade ao longo do tempo.”

É essa confiança que permite ao Guardei no Armário transitar entre diferentes formatos sem perder sua identidade. Livro, palestra, talk show e produções desenvolvidas com empresas fazem parte de um mesmo universo, sustentado pela relação com as pessoas que acompanham o trabalho. Nesse contexto, a comunidade deixa de ser apenas o público de uma iniciativa e passa a representar uma base para o desenvolvimento de novos projetos.

“Essa confiança faz com que as pessoas acompanhem não só o conteúdo que publico, mas também os novos caminhos que decido seguir. Seja um livro, uma palestra, um talk show, uma série produzida para uma marca ou um novo projeto, existe uma audiência que está disposta a conhecer, participar e apoiar porque entende o propósito por trás de cada iniciativa”, diz.

A conquista de novas frentes comerciais também passa pela capacidade de transformar a experiência acumulada em projetos com identidade própria. Em vez de depender exclusivamente de campanhas pontuais, o creator pode desenvolver propriedades intelectuais, eventos e produtos, além de estabelecer parcerias que se conectem à proposta de seu trabalho. A comunidade, nesse cenário, contribui para dar continuidade às iniciativas e ampliar suas possibilidades de alcance.

Outro marco dessa trajetória foi a participação no Shark Tank Brasil, na versão Creators. Segundo Gomes, a vitória garantiu a sustentabilidade do canal por mais um ano e abriu espaço para profissionalizar as entregas, realizar novas viagens e produzir uma nova temporada de entrevistas. A experiência reforçou a importância de estruturar o projeto como um negócio, com possibilidades de continuidade e expansão.

O desafio, agora, é construir diferenciais em um mercado no qual a produção de conteúdo se torna cada vez mais acessível. Com o avanço das ferramentas de inteligência artificial, a capacidade de produzir em escala tende a deixar de ser suficiente para garantir relevância. Na avaliação do criador, a autoria e a conexão humana ganham ainda mais importância nesse contexto.

“Com o avanço da inteligência artificial, produzir conteúdo vai se tornar cada vez mais fácil. Por isso, acredito que os conteúdos mais humanizados, autorais e capazes de gerar conexões reais serão ainda mais valorizados”, afirma.

A perspectiva também orienta os próximos passos do Guardei no Armário. Entre os planos de Gomes estão levar o projeto para outros países, continuar percorrendo o Brasil com o talk show ao vivo e ampliar a presença em teatros, criando espaços de conversa presencial. Ele também pretende adaptar a história de seu livro para uma peça teatral e um curta-metragem, além de explorar a possibilidade de desenvolver uma linha de produtos físicos de consumo.

Os planos apontam para um modelo em que o valor de um creator não está restrito ao tamanho de sua audiência, mas também à capacidade de desenvolver iniciativas que tenham vida própria. Para Gomes, o conteúdo é o ponto de partida para uma atuação que envolve criação, relacionamento e desenvolvimento de negócios.

“Creators não são apenas canais de distribuição de conteúdo. Somos capazes de criar propriedades intelectuais, desenvolver formatos, construir comunidades e gerar negócios. A audiência chama atenção, mas é a conexão que sustenta tudo no longo prazo”, conclui.

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