Por Alexandre Pierro
Após o encerramento do ciclo eleitoral mais polarizado da história recente do Brasil, o cenário que se projeta é de intensa pressão. Afinal, o novo governo assume demandas complexas e, embora seja cedo para prever os rumos gerais dos próximos quatro anos, já é possível enxergar no setor de inovação os obstáculos cruciais que terá de enfrentar.
Segundo o Global Innovation Index (GII) 2026, divulgado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI/WIPO), o Brasil ocupou a 53ª posição entre 139 economias. Vale destacar que esse é o terceiro recuo consecutivo desde 2023, quando alcançamos a 49ª colocação.
A classificação leva em conta sete pilares, dos quais dois dependem diretamente da atuação estatal: Instituições — que analisa estabilidade política, governança, eficácia da gestão pública, qualidade das leis, facilidade para abrir e fechar empresas e proteção a investidores e direitos de propriedade; e Infraestrutura — responsável por avaliar o acesso e uso de Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), desempenho ambiental/sustentabilidade e a infraestrutura física geral (energia, logística e transporte).
Esses indicadores parecem dialogar com as pautas apresentadas pelo governo eleito, que prevê, por meio de programas estratégicos, atrair e manter investimentos públicos e privados em logística, além de dar continuidade a obras e concessões. No entanto, ainda de acordo com o GII, dentro do pilar de Instituições, na categoria de Ambiente de Negócios, o Brasil ocupa a última posição. Já no quesito estabilidade política para fazer negócios, ficamos em penúltimo lugar (128º).
Na prática, esses dados evidenciam um cenário em que o empresariado enfrenta barreiras sistemáticas para expandir, tendo em vista uma cultura regulatória e políticas de empreendedorismo pouco atrativas. Um exemplo claro é a Lei do Bem: não pela norma em si, mas pela aplicação prática, na qual os incentivos se concentram quase exclusivamente em grandes corporações, excluindo a vasta maioria das pequenas e médias empresas (PMEs) — as quais, segundo dados do Sebrae de 2025, correspondem a 99% dos CNPJs ativos no país.
Outro ponto que merece destaque na agenda econômica é o desenvolvimento tecnológico. O novo governo sinalizou o compromisso de ampliar iniciativas voltadas à economia digital, Inteligência Artificial e energia limpa. Nesse aspecto, dentro do pilar de Infraestrutura, na categoria de TICs, ocupamos a 53ª posição.
O período eleitoral recente serviu como um alerta sobre o quanto o país ainda é dependente de soluções estrangeiras, reforçando o debate sobre a regulamentação das big techs no território nacional. Entretanto, é preciso chamar a atenção para o fato de que o Brasil possui plena capacidade de desenvolver suas próprias tecnologias, deixando de atuar como mero importador.
Isso abre margem para analisarmos outro pilar do ranking: Sofisticação de Negócios. Na categoria de colaboração entre universidades e indústria, ocupamos a 90ª posição. O resultado deixa claro o distanciamento entre o meio empresarial e a academia, o que compromete o desempenho do país ao ignorar a produção científica interna e recorrer constantemente a soluções externas.
Os dados apresentados sintetizam os gargalos históricos para a geração de inovação no Brasil. Perpetuamos o modelo de exportar matéria-prima e importar valor agregado. Embora cerca de 90% da nossa matriz elétrica venha de fontes limpas, ainda dependemos de tecnologia estrangeira para operar esse potencial. Na prática, essa conta não fecha.
Até 2030, o caminho será longo e desafiador. Para que os próximos quatro anos marquem uma virada consistente na agenda de inovação, o governo precisará priorizar cinco eixos fundamentais: criar marcos digitais e regras claras para o uso de tecnologias emergentes; democratizar os incentivos fiscais; fomentar a ponte entre universidades e o setor produtivo; estimular a produção nacional de tecnologia; e investir massivamente na infraestrutura do país.
Ao mesmo tempo em que o cenário traz incertezas, há espaço para otimismo. Segundo projeções do FMI, o Brasil pode retornar ao posto de 8ª maior economia do mundo a partir de 2027, patamar com sustentabilidade projetada para a próxima década. No entanto, o crescimento econômico puro e simples não garantirá relevância global se não for acompanhado de densidade tecnológica. O grande teste dos próximos quatro anos será transformar o potencial de mercado em capacidade própria de inovar — saindo da condição de espectador para se tornar um protagonista da economia do conhecimento.








