Durante muito tempo, a capacidade de uma administração pública foi associada ao tamanho do seu orçamento. Quanto mais recursos disponíveis, maior seria sua capacidade de realizar investimentos e transformar a cidade.
Essa lógica está mudando.
Os municípios continuarão enfrentando limitações orçamentárias, aumento das demandas sociais e necessidade crescente de investimentos em saúde, educação, mobilidade, esporte, saneamento e infraestrutura. Portanto, esperar que o orçamento público seja suficiente para resolver todas essas necessidades dificilmente será uma estratégia sustentável.
O diferencial estará na capacidade de transformar problemas em projetos.
“Quando observo uma cidade, não procuro primeiro saber o que ela pode construir. Procuro entender quais são seus problemas, seus ativos e suas oportunidades. É dessa combinação que podem nascer projetos capazes de mudar a realidade daquele município”, afirma Fabio Aquino, CEO da FME Management.
Essa mudança de perspectiva parece simples, mas representa uma transformação profunda na maneira de administrar.
Um terreno público sem utilização pode ser apenas uma despesa de manutenção. Com planejamento, pode fazer parte de um projeto de desenvolvimento urbano.
Uma estrutura esportiva abandonada pode representar um problema. Mas também pode se tornar o ponto de partida para um projeto envolvendo esporte, educação, saúde e desenvolvimento social.
Uma região com potencial turístico pouco explorado pode permanecer durante décadas esperando visitantes ou pode ser objeto de uma estratégia capaz de organizar infraestrutura, investimentos, serviços e geração de empregos.
O problema e a oportunidade muitas vezes estão no mesmo lugar.
O que os separa é a capacidade de enxergar um projeto onde outros enxergam apenas uma dificuldade.
O município precisa deixar de ser apenas comprador
Existe ainda uma transformação importante acontecendo na relação entre poder público e iniciativa privada.
Historicamente, boa parte da administração pública funciona a partir de uma lógica relativamente simples: identifica uma necessidade, disponibiliza recursos e contrata uma obra ou serviço.
Para projetos estruturantes, essa lógica nem sempre é suficiente.
Concessões, Parcerias Público Privadas e outros modelos de cooperação permitem pensar em relações de longo prazo, nas quais investimento, operação, manutenção, indicadores de desempenho e distribuição de riscos passam a fazer parte da mesma discussão.
Mas PPP não pode ser tratada como solução automática para a falta de dinheiro.
“Uma PPP ruim continuará sendo um projeto ruim, independentemente de quanto capital privado esteja envolvido. O primeiro investimento precisa ser em inteligência, planejamento e estruturação”, destaca Aquino.
Antes de buscar investidores, portanto, o poder público precisa construir projetos investíveis.
Isso significa compreender demanda, capacidade financeira, riscos, impactos, custos de operação, alternativas de contratação e benefícios esperados para a população.
Quanto melhor a estruturação, maior tende a ser a capacidade de o mercado compreender aquela oportunidade.
Existe uma disputa silenciosa entre cidades
Municípios também precisam perceber que existe uma competição crescente por capital.
Investidores possuem alternativas.
Empresas possuem alternativas.
Fundos possuem alternativas.
Quando um projeto chega ao mercado sem estudos consistentes, insegurança jurídica ou uma lógica econômica pouco clara, o capital simplesmente pode procurar outra oportunidade.
Por isso, acredito que o desenvolvimento econômico dos próximos anos dependerá cada vez menos de esperar investimentos e cada vez mais de construir razões para que eles aconteçam.
“Não basta uma cidade dizer que precisa de investimento. Centenas de cidades precisam. Ela precisa demonstrar por que determinado projeto faz sentido, quais resultados pode produzir e por que o investidor deveria olhar para aquela oportunidade”, afirma Aquino.
Esse raciocínio também muda o papel da liderança pública.
O prefeito deixa de ser apenas administrador de orçamento e passa a exercer também a função de articulador de desenvolvimento.
Isso exige capacidade de reunir governo, sociedade, empresas, investidores e conhecimento técnico em torno de uma visão de longo prazo.
Projetos precisam sobreviver aos governos
Talvez o maior teste de qualidade de um projeto público seja sua capacidade de continuar fazendo sentido depois da próxima eleição.
Mandatos possuem prazo.
Infraestrutura não.
Uma escola, hospital, parque, sistema de saneamento ou equipamento esportivo pode permanecer atendendo uma população durante décadas.
É por isso que projetos estruturantes não deveriam ser concebidos para quatro anos.
Precisam ser pensados para vinte, trinta ou até mais.
“A cidade que planeja apenas até a próxima eleição estará sempre começando novamente. Desenvolvimento exige continuidade, independentemente de quem esteja ocupando o gabinete”, afirma Aquino.
No futuro, acredito que haverá uma diferença cada vez mais evidente entre dois tipos de administração.
Aquela que administra os recursos que possui.
E aquela que, além disso, cria projetos capazes de gerar novas possibilidades de investimento, desenvolvimento e transformação.
A primeira administra limites.
A segunda constrói oportunidades.
E talvez seja justamente essa capacidade que definirá as cidades que conseguirão avançar mais rapidamente nas próximas décadas.
Porque o futuro dos municípios não dependerá apenas de quanto dinheiro existe no orçamento.
Dependerá da qualidade das ideias que conseguirem transformar em projetos e da capacidade desses projetos de transformar a vida das pessoas.
A cidade do futuro não será a que mais gastar. Será a que melhor souber transformar seus problemas em projetos.

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