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A embriagues da ignorância de quem não entende o que o álcool produz

Créditos da foto: Divulgação

Créditos da foto: Divulgação

Por Laura Porto
Escritora, Poeta e Neuromentora

Há noites que não terminam quando acabam.
Elas permanecem. Ecoam.
Assentam-se em algum lugar profundo da alma e, sem pedir licença, reorganizam tudo o que antes parecia entendimento.
Uma noite daquelas em que o tempo deixa de ser relógio e passa a ser travessia.
Uma noite em que cada palavra dita não foi apenas som, mas revelação.
Cada olhar não foi apenas presença, mas testemunho.
E cada silêncio, por mais breve que fosse, carregava a espessura de vidas inteiras.
Foi um verdadeiro doutorado de humanidade.
Havia dor, sim.
Mas não uma dor qualquer.
Era uma dor antiga, densa, dessas que atravessam famílias, afetos, rotinas, nomes e futuros.
Uma dor que não chega sozinha, ela arrasta consigo a perda, a ausência, a culpa, o medo e, por vezes, a lenta corrosão da dignidade.
Havia esperança também.
E talvez tenha sido justamente isso o mais desconcertante: perceber que, mesmo diante da ruína, ainda pode existir reconstrução.
Mesmo diante do abismo, ainda pode haver escolha.
Mesmo depois do colapso, ainda é possível que alguém se levante, ainda que em silêncio, ainda que aos pedaços, ainda que um dia de cada vez.
Fala-se muito sobre o álcool.
Fala-se em excesso, em dependência, em números, em recaídas, em tratamentos, em estatísticas.
Mas há uma distância quase cruel entre saber que algo existe e compreender, de fato, o tamanho de sua devastação.
Ouvir falar não revela a profundidade.
Os números não contam o cheiro da perda.

E há uma grandeza imensa em quem decide não ceder ao primeiro passo da queda.
Em quem compreende que certos abismos começam em pequenos gestos.
Em quem transforma a renúncia em sobrevivência.
Em quem faz da disciplina uma forma silenciosa de amor-próprio.
Talvez a verdadeira coragem não esteja nas grandes cenas que o mundo aplaude.
Talvez ela more exatamente ali:
na escolha íntima, repetida, invisível, solitária e diária de não se perder de novo.
Saí daquela noite diferente.
Com menos certezas fáceis.
Com menos julgamentos prontos.
Com menos distância entre mim e a dor do outro.
E, talvez, com mais humanidade.
Porque algumas experiências não chegam para informar.
Elas chegam para romper.
Para deslocar.
Para nos arrancar da superficialidade com que, tantas vezes, atravessamos o sofrimento alheio.
Há encontros que não cabem em agradecimentos.
Há aprendizados que não cabem em frases prontas.
Há noites que não cabem no calendário.
Elas permanecem em nós como um marco.
Como uma fresta.
Como um antes e depois.
E talvez seja isso que certas verdades fazem quando finalmente nos alcançam:
Não apenas ampliam o olhar
Elas devolvem profundidade à alma.

As estatísticas não narram o esvaziamento de uma casa, o peso de um olhar, o constrangimento de um filho, o cansaço de quem ama, o silêncio de quem já não sabe mais como pedir ajuda.
Há tragédias que os gráficos não conseguem traduzir.
E talvez seja esse um dos maiores equívocos da sociedade contemporânea:
acreditamos que conhecer um problema é saber o suficiente sobre ele.
Mas não é.
Há realidades que só se tornam verdadeiras quando deixam de ser conceito e passam a ser presença.
Quando deixam de ser dado e se tornam rosto.
Quando deixam de ser informação e se transformam em carne, memória e consequência.
Ontem, o álcool deixou de ser tema.
Passou a ser espelho social.
E, diante dele, não havia apenas a imagem de uma substância.
Havia a anatomia de uma ferida coletiva.
Havia o retrato de quantas vidas se perdem antes mesmo de morrer.
Havia a lembrança incômoda de que a autodestruição raramente é solitária , ela se espalha pelos vínculos, invade os lares, contamina afetos e adoece silêncios.
Mas havia, também, algo luminoso.
A resistência.
Essa força quase invisível que não faz alarde, não busca aplauso e, ainda assim, realiza diariamente um dos gestos mais heroicos que existem:
o de escolher a vida.
Porque há batalhas que não se vencem uma vez.
Vencem-se todos os dias.
Às vezes, a cada manhã.
Às vezes, a cada hora.
Às vezes, a cada minuto.

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