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A entrevista termina quando o recrutador pergunta se você tem alguma dúvida?

Kauã Leandro - Créditos da foto: Divulgação

Kauã Leandro - Créditos da foto: Divulgação

Momento que muitos candidatos encaram como mera formalidade pode revelar curiosidade, capacidade analítica, comunicação e interesse genuíno pela oportunidade, competências cada vez mais valorizadas pelas empresas

A cena é conhecida por quem já participou de um processo seletivo. Depois de responder perguntas sobre trajetória profissional, resultados alcançados e expectativas de carreira, o candidato ouve uma frase aparentemente simples: “Você tem alguma dúvida?”.

Para muitos profissionais, esse é o sinal de que a entrevista está chegando ao fim. Mas, para recrutadores, a conversa nem sempre termina nesse momento.

O espaço aberto para perguntas costuma funcionar como uma oportunidade para observar aspectos que dificilmente aparecem em respostas previamente preparadas. Interesse pela vaga, curiosidade, capacidade de análise e até o nível de preparação para a entrevista podem se tornar mais visíveis justamente quando o candidato assume o protagonismo da conversa.

A relevância dessas competências acompanha uma mudança mais ampla no mercado de trabalho. Levantamento do LinkedIn mostrou que 92% dos líderes de talento consideram as habilidades comportamentais tão importantes quanto, ou mais importantes, que as competências técnicas na hora de contratar. Nesse cenário, fatores como comunicação, inteligência emocional, adaptabilidade e pensamento crítico passaram a ocupar espaço crescente nas decisões de recrutamento.

Para Kauã Leandro, gerente de Novos Negócios do Trabalha Brasil (TBR), o momento das perguntas oferece uma oportunidade valiosa para que o profissional demonstre características que vão além do currículo.

“Muitas vezes o candidato acredita que está apenas esclarecendo dúvidas sobre a vaga. Mas a forma como ele conduz esse momento pode revelar interesse genuíno, capacidade de reflexão, preparo e até o quanto conseguiu compreender o contexto da posição durante a entrevista.”

O que os recrutadores observam quando o candidato faz perguntas

As perguntas feitas ao final da entrevista não costumam ser avaliadas apenas pelo conteúdo. A forma como elas são construídas também ajuda os recrutadores a entender aspectos do perfil profissional.

Questionamentos sobre desafios da função, expectativas para os primeiros meses no cargo, estrutura da equipe ou prioridades da área costumam indicar que o candidato está tentando compreender o contexto da posição e avaliar como poderá contribuir para os resultados da organização.

Por outro lado, perguntas excessivamente genéricas ou desconectadas da conversa podem transmitir a impressão de que houve pouca preparação prévia.

Segundo a National Association of Colleges and Employers (NACE), 90% dos empregadores afirmam buscar evidências de capacidade de resolução de problemas durante currículos e entrevistas. A competência aparece entre as mais valorizadas pelas organizações, especialmente em funções que exigem tomada de decisão, adaptação e pensamento analítico.

Para Leandro, o momento final da entrevista pode funcionar justamente como uma demonstração prática dessas habilidades.

“Quando o candidato faz perguntas relevantes sobre desafios da área, expectativas da liderança ou objetivos da posição, ele mostra que está conectando informações, analisando cenários e tentando entender como pode gerar valor. Isso acaba trazendo elementos importantes para a avaliação.”

A entrevista deixou de ser uma via de mão única

Durante muito tempo, processos seletivos foram encarados como uma sequência de perguntas feitas pela empresa e respondidas pelo candidato. Hoje, a dinâmica é diferente.

Cada vez mais organizações procuram profissionais capazes de analisar contextos, buscar informações e participar ativamente das discussões relacionadas à própria carreira. Nesse ambiente, a entrevista se aproxima de uma conversa em que ambas as partes avaliam se existe alinhamento entre expectativas, valores e objetivos.

Essa mudança também acompanha a valorização crescente da capacidade de aprendizagem. Segundo o LinkedIn Workplace Learning Report 2026, 74% dos líderes de aquisição de talentos consideram adaptabilidade e aprendizado contínuo mais importantes do que a experiência em um domínio específico.

O dado ajuda a explicar por que recrutadores estão cada vez mais atentos a sinais de curiosidade intelectual e interesse por desenvolvimento profissional.

“As empresas sabem que conhecimentos técnicos podem ser desenvolvidos ao longo do tempo. Por isso, existe uma atenção cada vez maior à forma como o profissional aprende, busca informações e reage diante de novos desafios”, afirma Leandro.

Mais do que esclarecer dúvidas

Fazer perguntas ao final da entrevista não garante uma contratação. Da mesma forma, optar por não fazê-las não elimina automaticamente um candidato de um processo seletivo.

Ainda assim, especialistas em recrutamento observam que esse momento ganhou importância à medida que as empresas passaram a valorizar competências comportamentais que nem sempre aparecem em currículos ou testes técnicos.

Curiosidade, pensamento crítico, comunicação e interesse pelo negócio são características que costumam surgir de maneira mais espontânea quando o candidato conduz parte da conversa.

Por isso, a pergunta “Você tem alguma dúvida?” pode representar mais do que um encerramento protocolar. Em muitos casos, ela marca o início de uma etapa em que o recrutador deixa de avaliar apenas o que o profissional fez ao longo da carreira e passa a observar como ele pensa, aprende e se posiciona diante de novas oportunidades.

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