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A nova lógica dos currículos: por que uma página já não é mais a principal regra

Renato Mendes - Créditos da imagem: Divulgação

Renato Mendes - Créditos da imagem: Divulgação

Com a inteligência artificial assumindo parte da triagem de currículos, especialistas explicam como as mudanças nos processos seletivos estão redefinindo a forma de apresentar experiências e competências

O currículo de uma página ganhou espaço nos últimos anos como sinônimo de objetividade. Mas, enquanto candidatos discutem o tamanho ideal do documento, uma transformação muito mais profunda vem mudando os processos seletivos: em muitas empresas, a primeira análise do currículo já é feita com o apoio de sistemas de rastreamento de candidatos (ATS) e ferramentas de inteligência artificial.

A mudança acompanha o crescimento do volume de candidaturas. Segundo dados do LinkedIn, são cerca de 11 mil candidaturas por minuto na plataforma. Outro levantamento aponta que o número de inscrições para vagas aumentou mais de 45% em relação ao ano anterior. Na indústria, uma vaga recebe, em média, 132 candidatos, mas apenas 31% deles atendem aos requisitos esperados para a função.

Diante desse cenário, empresas passaram a investir em tecnologias para organizar a etapa inicial da seleção. Pesquisa da Aptitude Research, em parceria com a iCIMS, mostra que 69% das organizações já utilizam inteligência artificial em alguma etapa da aquisição de talentos. Outro levantamento aponta que 97,8% das empresas da Fortune 500 utilizam sistemas ATS para gerenciar candidaturas.

Na prática, essas ferramentas ajudam a organizar o grande volume de currículos recebidos, identificando informações como competências, experiências, formação e outros critérios definidos para cada vaga antes da análise do recrutador.

Para Renato Mendes, CEO da Mendes Talent, a tecnologia surgiu como resposta a um desafio que os recrutadores já enfrentavam há alguns anos: o crescimento expressivo do número de candidaturas. “Existe a percepção de que a inteligência artificial substituiu o recrutador, mas ela tem outro papel. A tecnologia ajuda a organizar milhares de candidaturas e identifica aquelas com maior aderência aos requisitos da vaga. A decisão sobre quem será contratado continua sendo humana.”

O currículo de uma página continua sendo regra?

A ideia de que todo currículo deve caber em apenas uma página vem sendo questionada à medida que os processos seletivos se tornam mais especializados. 

Guias internacionais voltados ao recrutamento recomendam o modelo de uma página para profissionais em início de carreira ou com experiência mais enxuta. Já para quem acumula mais de dez anos de trajetória profissional, currículos de duas ou até três páginas podem ser adequados, desde que o conteúdo seja relevante e organizado.

“O currículo precisa ser objetivo, mas objetividade não significa retirar informações importantes. Profissionais mais experientes precisam demonstrar evolução na carreira e resultados alcançados, sempre priorizando aquilo que faz sentido para a vaga em questão”, afirma Mendes.

O que faz um currículo avançar

Os estudos indicam que a eliminação de currículos está cada vez menos relacionada ao aspecto visual do documento e mais à qualidade das informações apresentadas.

Levantamentos mostram que 42% dos currículos deixam de avançar por não demonstrarem as competências exigidas para a vaga. Outros 28% são barrados pela ausência de palavras-chave compatíveis com a descrição da posição. Além disso, pesquisas apontam que sistemas ATS descartam cerca de 37% das candidaturas antes mesmo da avaliação por um recrutador, principalmente quando não encontram correspondência entre o perfil do candidato e os requisitos da vaga.

Segundo Mendes, isso exige uma mudança de comportamento por parte dos candidatos. “Durante muito tempo, as pessoas preparavam um currículo e o enviavam para dezenas de vagas. Hoje isso tende a ser menos eficiente. Vale a pena adaptar o documento para destacar as experiências, competências e resultados mais relacionados ao cargo pretendido, sempre de forma verdadeira e coerente com a trajetória profissional.”

Outro cuidado envolve o próprio uso da inteligência artificial. Pesquisa da Michael Page mostra que 73% dos candidatos brasileiros utilizam IA para adaptar seus currículos às vagas. A tecnologia pode ajudar na organização das informações e na revisão do texto, mas seu uso indiscriminado também aumenta o risco de produzir documentos genéricos, pouco conectados à experiência real do profissional.

A inteligência artificial dos dois lados da seleção

A inteligência artificial já faz parte da rotina de candidatos e empresas. Enquanto organizações utilizam essas ferramentas para ganhar eficiência na gestão de grandes volumes de candidaturas, profissionais recorrem à tecnologia para revisar currículos, adaptar informações às vagas e preparar outras etapas do processo seletivo.

Esse movimento mostra que a IA deixou de ser um diferencial para se tornar uma ferramenta de apoio em ambos os lados do processo seletivo. Ainda assim, a tecnologia não substitui a avaliação humana.

“A inteligência artificial consegue organizar informações e tornar o processo mais ágil, mas ela não identifica potencial, perfil comportamental ou aderência à cultura da empresa. Essas avaliações continuam dependendo da análise do recrutador. O currículo continua sendo o principal documento para apresentar a trajetória, os resultados e as competências de cada profissional”, conclui Mendes.

Nesse contexto, o tamanho do currículo deixa de ser a principal preocupação. O diferencial passa a ser a capacidade de apresentar informações relevantes, organizadas e alinhadas ao perfil buscado pela empresa, facilitando tanto a leitura dos sistemas quanto a avaliação dos recrutadores.

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