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A palavra dita continua falando sobre nós

Créditos da Foto: Divulgação

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Minha preocupação com a palavra é grande, sempre foi.

Tive uma amiga e colega de trabalho, a Miti, Marcia Mitiko Matsubara, que se sentava bem às minhas costas. Ela percebia quando eu começava a escrever um daqueles e-mails nascidos da irritação. Talvez pela minha postura ou pela força com que pressionava as teclas. Nessas horas, ela aproximava-se gentilmente, tomava conta do computador e aquele e-mail, cujo objetivo era afogar o destinatário em um copinho de café, transformava-se em uma mensagem objetiva, limpa, direta, mas extremamente cordial.

Outra pessoa que me ensinou muito sobre o uso da palavra foi Paulo Centeno, vice-presidente na Mobitel. Ele repetia: “A palavra escrita é a palavra pensada”. Com ele, aprendi a escrever, guardar no rascunho e reler trinta minutos depois. Era impressionante como, passado algum tempo, aquilo que parecia absolutamente necessário já não fazia sentido. Ou fazia, mas não precisava ser dito daquela maneira.

Guardo esses dois ensinamentos e procuro praticá-los. Nem sempre consigo, mas tento. Talvez por isso me incomode tanto a leviandade com que usamos certas palavras, principalmente quando recorremos aos animais, equivocadamente, para depreciar comportamentos humanos. Chamamos alguém de “burro” para dizer que não é inteligente, de “porco” para falar de sujeira, de “cobra” para definir alguém traiçoeiro, de “vaca” para atacar uma mulher, mas o que estamos realmente dizendo quando fazemos isso?

A linguagem não apenas revela preconceitos que já temos, ela também ajuda a mantê-los vivos. Quando repetimos associações depreciativas sem pensar sobre sua origem, reforçamos estereótipos e naturalizamos formas de desrespeito, não apenas contra a pessoa que pretendemos ofender, mas também contra os animais que usamos como referência para a ofensa.

Pesquisadores como Nick Haslam, Steve Loughnan e Pamela Sun estudaram justamente o caráter ofensivo das metáforas com animais. Seus trabalhos mostram que esse tipo de linguagem pode funcionar como forma de desumanização: diminuímos uma pessoa aproximando-a simbolicamente daquilo que consideramos inferior e há uma contradição nisso.

Nenhum burro jamais foi “burro” no sentido humano da palavra, nenhuma cobra traiu alguém, nenhum porco decidiu ser moralmente repugnante e nenhuma vaca criou regras sobre o comportamento feminino. Esses significados são nossos. Nós os criamos, atribuímos aos animais e depois os utilizamos para atacar outros seres humanos. O problema nunca esteve nos animais, está em nós. Nesse ponto costuma surgir uma reação: “Mas agora não se pode falar mais nada?”. Pode, claro. Não defendo uma polícia das palavras, defendo algo mais difícil: consciência.

Liberdade para falar não elimina a responsabilidade sobre aquilo que escolhemos dizer. Intenção e impacto não são necessariamente a mesma coisa. “Eu não quis ofender” explica uma intenção, mas não apaga automaticamente o efeito. Isso vale também para nossas relações profissionais e pessoais. Quantos conflitos começam não pelo conteúdo de uma divergência, mas pela maneira como decidimos expressá-la? Quantas relações seriam preservadas se esperássemos os trinta minutos que aprendi com Paulo? Quantas conversas seriam diferentes se tivéssemos uma Miti ao lado para retirar a agressividade sem retirar a firmeza?

Ser cordial não significa ser fraco, pensar antes de falar não significa deixar de se posicionar. Escolher palavras melhores não empobrece o idioma, ao contrário, demonstra que o dominamos suficientemente para não precisar da agressão como argumento.

As palavras importam porque construímos relações com elas, com palavras educamos, lideramos, amamos, demitimos, humilhamos, encorajamos, excluímos, pedimos perdão e estabelecemos experiências, inclusive, a experiência do cliente.

Por isso, continuo acreditando que a palavra escrita é a palavra pensada. E acrescentaria: a palavra repetida também é pensamento aprendido. Talvez devêssemos fazer com algumas palavras aquilo que Miti fazia com meus e-mails: retirar a agressividade sem retirar o que precisa ser dito. E fazer aquilo que Paulo me ensinou: colocar certas palavras no rascunho, algumas, talvez, mereçam ficar lá para sempre.

Porque podemos pedir desculpas, explicar o contexto e até mudar de opinião, mas não conseguimos desdizer aquilo que já chegou ao outro. Devemos também desculpas aos animais, que tantas vezes usamos como sinônimo daquilo que julgamos inferior, e eles não são! Compartilhamos com eles este mundo e passou da hora de nossas palavras reconhecerem isso; não somos superiores hierarquicamente e não somos o centro ou donos do mundo. A palavra dita continua falando muito depois de nós e, enquanto fala, continua dizendo quem somos.

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