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A próxima disputa entre montadoras será pela compreensão do consumidor

Robson Thomaz - Créditos da foto: Divulgação

Robson Thomaz - Créditos da foto: Divulgação

*Robson Thomaz

Comprar um carro costuma ser tratado como uma decisão emocional e, em boa parte, é mesmo. Mas é também uma das decisões financeiras mais significativas que a maioria das pessoas toma em um ciclo de vários anos. Antes de olhar para cor, design ou o modelo que está na moda, existe uma pergunta mais importante, e frequentemente ignorada: esse carro realmente serve para a vida que eu levo? Qual melhor carro para o meu perfil?

Um dos erros mais comuns na hora de comprar um carro é deixar que o preço de compra funcione como critério decisivo isolado. Ele importa, obviamente, mas tratá-lo como o único filtro da decisão costuma gerar arrependimento mais à frente — quando o consumo real de combustível, o custo de manutenção, o valor do seguro ou a depreciação do modelo escolhido aparecem na prática, meses depois da compra. Antes de fechar negócio, vale organizar a pesquisa e comparar minuciosamente as alternativas usando critérios que vão além do valor na etiqueta.

Por anos, a competição entre montadoras se resolveu em terrenos relativamente previsíveis: motor mais potente, consumo mais eficiente, preço mais competitivo, rede de concessionárias mais ampla. Esses fatores continuam relevantes, mas hoje deixaram de ser, isoladamente, o que decide uma venda. Os dados mais recentes do mercado brasileiro apontam para uma disputa diferente, e bem mais difícil de vencer: a compreensão real de quem é o consumidor, o que ele já sabe antes de entrar na loja, e o que ele espera receber quando chega lá.

Um consumidor que já decidiu antes de aparecer

O comportamento de compra no setor automotivo mudou de forma estrutural. O consumidor já não começa a jornada na loja física — ele chega mais preparado, muitas vezes já sabendo qual modelo quer, qual faixa de preço aceita e quais condições espera, em um movimento diretamente conectado ao avanço das jornadas digitais e ao uso de dados ao longo do processo de compra.

Isso muda completamente o papel da concessionária e, por extensão, da própria montadora. Quando o consumidor chega já decidido, o diferencial competitivo deixa de estar apenas no produto físico e passa a estar em quem conseguiu, antes de todo mundo, entender o que aquele consumidor específico estava procurando — e entregar a mensagem certa, pelo canal certo, no momento certo da jornada.

A demanda existe. A pergunta é quem vai capturá-la

O tamanho da oportunidade em jogo é considerável. Dados recentes do mercado apontam que 68% dos brasileiros pretendem adquirir um veículo em 2026, mantendo o mesmo patamar do ano anterior — mas com uma mudança relevante no ritmo: a intenção de compra já no primeiro semestre subiu de 37% para 45% na comparação anual. É um mercado com demanda firme, mas com uma janela de decisão que se abre mais cedo e se fecha mais rápido.

Existe um desafio nesse cenário, a alta intenção de compra do consumidor brasileiro é um recado claro de que existe espaço para crescer, mas quem souber oferecer o portfólio certo, com condições atrativas — especialmente para quem está trocando de veículo, perfil que concentra a maior parte dos interessados — é quem vai efetivamente capturar esse movimento. Ter demanda aquecida não garante conversão. Entender exatamente o que motiva cada segmento dessa demanda, sim.

Trocar de carro não é o mesmo motivo para todo mundo

Um dos dados mais úteis para quem pensa em entender o consumidor de forma mais granular é a composição dos motivos de compra. Entre os brasileiros com intenção de adquirir um veículo em 2026, o principal motivo é a atualização do modelo, citado por 37% dos respondentes. Em seguida aparecem o hábito de trocar de carro periodicamente, com 29%, e a necessidade de substituição por desgaste do veículo atual, com 23%. Além disso, 73% dos interessados já possuem um veículo — a maior parte do mercado, portanto, não é de primeira compra, mas de troca.

Esses três motivos — atualização, hábito e necessidade — representam perfis de consumidor completamente diferentes, com sensibilidade a preço, urgência de decisão e critérios de escolha distintos entre si. Uma montadora que trata esse público como um bloco homogêneo, com a mesma comunicação e a mesma oferta para todos, está deixando sobre a mesa uma das informações mais valiosas que o próprio mercado já disponibilizou: o motivo específico que está movendo cada fatia dessa demanda.

Eletrificação como decisão racional, não apenas ambiental

O avanço dos elétricos no imaginário do consumidor brasileiro também revela uma mudança de critério de decisão. Não é apenas que a eletrificação ganhou espaço — é que ela ganhou espaço por múltiplos motivos simultâneos, que se misturam de forma diferente para cada consumidor: um decide por economia de combustível, outro por consciência ambiental, um terceiro por estar atrás da conectividade mais avançada. Vender eletrificação com uma única narrativa genérica — “sustentabilidade” ou “economia”, isoladamente — ignora que a decisão real do consumidor brasileiro é multifatorial, e que a montadora capaz de identificar qual fator pesa mais para cada perfil de comprador tem vantagem clara na conversão.

O carro virou plataforma de dados — e isso muda a régua de competição

Há ainda uma camada mais estrutural nessa disputa. O mercado de 2026 é de “smart mobility”: o carro deixou de ser apenas um meio de transporte e passou a ser um dispositivo conectado, que gerencia energia e dados continuamente. Isso significa que a estrutura de vendas, antes dependente principalmente do lançamento de novos modelos, passa a depender também da manutenção da relevância do software embarcado ao longo de toda a vida útil do veículo.

Montadoras que insistem em um modelo de negócio centrado exclusivamente na venda de hardware e manutenção mecânica básica tendem a perder espaço para marcas que tratam o automóvel como uma plataforma de serviços digitais contínuos — o que exige, por definição, entender o comportamento do consumidor não apenas no momento da compra, mas ao longo de toda a relação com o veículo depois dela.

Mais concorrência, menos espaço para erro na leitura do consumidor

Esse cenário de disputa pela compreensão do consumidor ganha ainda mais urgência com a entrada de novas montadoras no mercado brasileiro, especialmente marcas asiáticas, que têm pressionado preços e ampliado a oferta de modelos, principalmente em segmentos como SUVs e veículos eletrificados. Com mais opções disponíveis para o mesmo consumidor, a decisão de compra tende a ficar mais racional, mais comparada e mais planejada — o que reduz a margem de erro para montadoras que ainda comunicam de forma genérica, sem personalização real.

O que isso significa na prática para o setor

O produto automotivo brasileiro está mais diversificado, mais acessível em opções, e disputado por um número maior de marcas do que em qualquer momento recente. Nesse cenário, a variável que ainda não está plenamente explorada pela maioria das montadoras não é tecnológica — é interpretativa. Entender que “querer trocar de carro” pode significar três motivações completamente diferentes; que conforto pesa mais do que tecnologia pura na decisão declarada do consumidor; que a escolha por um elétrico raramente nasce de um único fator; e que a relação com o consumidor não termina na assinatura do contrato, mas continua através do software que o carro carrega — tudo isso é dado disponível, mas ainda pouco convertido em estratégia comercial diferenciada.

Quem continuar competindo apenas em especificação técnica e preço vai descobrir, tarde, que estava competindo no critério errado.

*Robson Thomaz é CEO da ELTRO – hub especializado em mobilidade eletrificada que conecta consumidores, montadoras, concessionárias e o ecossistema automotivo por meio de informação, tecnologia e inteligência de mercado. A ELTRO tem como propósito oferecer conhecimento, transparência e orientação para que cada decisão seja tomada com segurança, confiança e autonomia, contribuindo para acelerar a adoção da mobilidade eletrificada no Brasil.

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