Durante muitos anos, a eficiência da administração pública foi medida principalmente pela capacidade de reagir. Surge um problema, busca-se orçamento, abre-se um processo, contrata-se uma solução e inicia-se a execução.
Essa lógica funcionou por décadas. Mas acredito que as cidades que mais avançarão nos próximos anos serão justamente aquelas que conseguirem inverter essa dinâmica.
O futuro da gestão pública será menos reativo e muito mais preventivo.
Isso significa identificar hoje os problemas que poderão comprometer uma cidade daqui a cinco, dez ou vinte anos e começar a estruturar as soluções antes que eles se transformem em urgências.
“Na gestão, quase sempre é mais barato antecipar um problema do que administrar uma crise. O desafio é que prevenir raramente gera a mesma visibilidade que inaugurar”, afirma Fabio Aquino, CEO da FME Management.
Essa reflexão vale para praticamente todas as áreas da administração pública.
Uma escola que recebe manutenção contínua dificilmente chegará ao ponto de exigir uma grande reforma emergencial. O mesmo raciocínio pode ser aplicado a hospitais, iluminação, saneamento, equipamentos esportivos, parques e demais estruturas públicas.
Quando a administração trabalha apenas de forma corretiva, o poder público passa boa parte do tempo tentando recuperar aquilo que já perdeu eficiência.
O custo invisível da falta de planejamento
Existe um custo que dificilmente aparece nas fotografias de uma obra pública: o custo de não ter planejado antes.
Infraestrutura deteriorada custa dinheiro.
Equipamentos indisponíveis custam dinheiro.
Interrupções de serviços custam dinheiro.
Contratações emergenciais podem custar dinheiro.
Mas também existe um custo social.
Uma escola deteriorada afeta alunos e profissionais. Uma unidade de saúde com problemas de infraestrutura afeta atendimento. Um equipamento esportivo abandonado deixa de cumprir uma função social.
Por isso, acredito que precisamos ampliar o conceito de eficiência.
“Eficiência não é simplesmente gastar menos. É conseguir entregar mais qualidade durante mais tempo com os recursos disponíveis”, destaca Aquino.
Essa mudança de visão é particularmente importante quando falamos de contratos de longo prazo.
PPPs podem ajudar a mudar essa lógica
Uma das características mais interessantes de determinados modelos de Parceria Público Privada é justamente a possibilidade de incorporar manutenção, operação e indicadores de desempenho ao longo de muitos anos.
Isso permite mudar uma lógica histórica.
Em vez de construir, utilizar até deteriorar e posteriormente contratar uma nova intervenção, é possível estruturar contratos nos quais a qualidade do ativo e dos serviços faça parte das obrigações durante todo o período contratado.
Mas é importante fazer uma ressalva.
PPP não significa automaticamente eficiência.
Um contrato mal modelado continuará sendo um contrato mal modelado, independentemente de sua duração.
A qualidade começa muito antes da licitação.
Começa na definição do problema, nos estudos técnicos, na análise de alternativas, na distribuição adequada de riscos, nos indicadores de desempenho e na capacidade do poder público de fiscalizar aquilo que foi contratado.
“A grande vantagem de um projeto estruturado não está simplesmente em trazer a iniciativa privada. Está em estabelecer responsabilidades, desempenho e resultados que possam ser acompanhados ao longo do tempo”, afirma Aquino.
Tecnologia é ferramenta. Inteligência é estratégia.
Quando falamos sobre cidades do futuro, rapidamente aparecem expressões como inteligência artificial, sensores, big data e cidades inteligentes.
Todas essas tecnologias terão importância crescente.
Mas existe um risco em confundir tecnologia com inteligência de gestão.
Uma prefeitura pode possuir os sistemas mais modernos do mercado e continuar tomando decisões ruins.
Tecnologia fornece informação.
Liderança transforma informação em decisão.
É justamente nessa capacidade que acredito estar uma das maiores transformações da administração pública.
Dados podem indicar crescimento populacional, envelhecimento de determinada infraestrutura, aumento de demanda por serviços ou transformação econômica de uma região.
O verdadeiro avanço acontece quando essas informações são utilizadas para antecipar investimentos e estruturar projetos.
Existe uma diferença entre administrar e preparar
Administrar significa cuidar da cidade que existe hoje.
Preparar significa construir condições para a cidade que existirá amanhã.
Os dois trabalhos são necessários.
Mas o segundo exige algo que nem sempre cabe dentro do calendário político: visão de longo prazo.
Mandatos possuem quatro anos. Muitos projetos de infraestrutura possuem ciclos de vinte ou trinta anos.
É justamente por isso que projetos estruturantes precisam ser maiores do que governos.
“Um bom gestor resolve os problemas que recebeu. Um grande líder tenta evitar que determinados problemas precisem ser enfrentados pela próxima geração”, afirma Aquino.
Talvez essa seja uma das melhores definições de legado.
Não apenas aquilo que um governo construiu.
Mas também os problemas que conseguiu impedir que acontecessem.
No futuro, as cidades mais eficientes provavelmente não serão aquelas que mais gastarem ou que possuírem mais tecnologia.
Serão aquelas capazes de utilizar informação, planejamento e liderança para tomar decisões antes que a urgência determine o caminho.
Porque quando um problema se transforma em crise, as opções diminuem e os custos aumentam.
Planejar é justamente preservar a capacidade de escolher antes que a realidade escolha por nós.

