Webinar da FGV destacou impactos do acordo para indústria, agronegócio e bioeconomia
Redução de tarifas e acesso a 720 milhões de consumidores reposicionam o Brasil e a Amazônia no comércio global
Acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo e pode ampliar exportações brasileiras
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, considerado um dos mais relevantes das últimas décadas, foi destaque ontem, 4 de maio, em mais um episódio da série Diálogos Amazônicos promovido pela (FGV) Fundação Getúlio Vargas, com apoio do CIEAM (Centro da Indústria do Estado do Amazonas) e deve representar um marco para a inserção internacional da economia brasileira, com impactos diretos sobre exportações, investimentos e desenvolvimento sustentável.
Com um mercado potencial de cerca de 720 milhões de consumidores e um (PIB) combinado estimado em US$ 23 trilhões, o acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Na prática, a União Europeia já iniciou a redução de tarifas, zerando aproximadamente 54% das linhas tarifárias, o que corresponde a cerca de 80% das exportações brasileiras para o bloco.
Para o professor da FGV EESP e ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério da Economia, Lucas Ferraz, o acordo representa uma mudança estrutural na política comercial brasileira. “O acordo é um divisor de águas na história do comércio brasileiro”, afirmou.
Segundo Ferraz, a iniciativa também amplia o posicionamento estratégico do país no cenário internacional. “Nós estamos falando de uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, com enorme potencial de geração de benefícios econômicos e atração de investimentos”, destacou o especialista
Entre os setores mais beneficiados, está o agronegócio, com redução de barreiras para produtos como suco de laranja, café, frutas e derivados de soja. Por outro lado, a abertura comercial deve pressionar segmentos industriais menos competitivos, exigindo adaptação gradual ao novo cenário.
A Amazônia surge como um dos principais vetores estratégicos do acordo, especialmente no contexto da bioeconomia. Para Frederico Oliveira de Aguiar, Superintendente Adjunto Executivo da SUFRAMA (Superintendência da Zona Franca de Manaus), o acordo pode representar uma oportunidade relevante de desenvolvimento regional.
“O acordo representa uma oportunidade de diversificação dos vetores da matriz econômica da Amazônia, especialmente no que se refere à bioeconomia”, afirmou.
Aguiar também destacou o potencial de inserção internacional de produtos sustentáveis da região. “Bioinsumos da Amazônia, como açaí, guaraná e outros produtos com indicação geográfica, podem ganhar espaço no mercado europeu com o reconhecimento dessas certificações”, explicou.
Outro ponto relevante, segundo o executivo, é a possibilidade de integração da região às cadeias globais. “O fato de a Zona Franca de Manaus não ter sido excluída do acordo abre um potencial importante de inserção em cadeias produtivas internacionais”, disse.
O acordo também favorece produtos com rastreabilidade e práticas ambientais responsáveis, alinhando-se às exigências do consumidor europeu e criando oportunidades para cooperativas, pequenos produtores e cadeias sustentáveis. Apesar do potencial, especialistas apontam desafios estruturais. A falta de organização e escala nas cadeias produtivas da bioeconomia ainda limita o aproveitamento imediato dessas oportunidades.
“No médio e longo prazo, o acordo pode estimular investimentos e a estruturação dessas cadeias produtivas na Amazônia”, completou Aguiar.
No campo geopolítico, o acordo representa um movimento estratégico do Brasil e do Mercosul em direção à diversificação de parcerias comerciais, em um cenário global marcado pela disputa entre grandes potências.
A avaliação geral é de que o acordo não resolve, por si só, os entraves estruturais da economia brasileira, mas abre uma janela relevante para aumento de competitividade, integração internacional e desenvolvimento sustentável.

