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Alavancagem: vilã ou aliada na geração de valor?

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Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista
divulgação Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista

Bruno Oliveira

Toda semana me deparo com investidores que me questionam sobre a alavancagem das mais variadas companhias listadas na bolsa. A grande verdade é que o endividamento ainda é encarado com certa desconfiança por muitas pessoas — principalmente os mais novos. E isso até que faz sentido, uma vez que, na superfície, o termo “dívida” remete a ideia de risco e ao fato de que as obrigações financeiras, se não forem bem geridas, podem comprometer a perenidade de uma companhia. Todavia, uma análise mais cuidadosa e racional nos mostra que a alavancagem, quando bem ajustada, pode ser – e é – uma poderosa aliada da rentabilidade e da geração de valor para os acionistas.

Quando pensamos no contexto brasileiro – marcado por uma das maiores cargas tributárias do mundo – a decisão de se alavancar pode ser estrategicamente positiva, se bem executada. Quem tem dívida paga menos imposto e o mesmo vale para as companhias. Isso ocorre graças à dedutibilidade dos juros – um benefício fiscal real e frequentemente subestimado. A alavancagem, nesse sentido, se transforma em um instrumento de eficiência tributária [redução do pagamento de imposto de maneira lícita].

Além disso, quando falamos de empresas de qualidade – aquelas com geração de caixa consistente, modelo de negócios previsível e perene, aliado a uma boa governança – o endividamento controlado pode maximizar o retorno sobre o capital investido [famoso ROIC, para os mais inteirados do assunto]. Poderíamos apelidar isso de “alavancagem financeira vantajosa”: a empresa toma recursos de terceiros a um custo mais baixo do que a rentabilidade obtida em suas operações, gerando valor ao acionista maior do que se não tivesse recorrido ao capital de outras pessoas ou entidades. O resultado é simples: mais lucro, mais caixa e, consequentemente, mais proventos aos acionistas.

Claro que esse movimento não é isento de riscos. Ao assumir dívidas, a companhia cria obrigações futuras que precisam ser honradas independentemente da conjuntura macroeconômica. Isso exige disciplina financeira, controle de custos e boa gestão de passivos – atividades que são executadas com excelência quando o time financeiro tem qualidade. Mas, para empresas sólidas, que já operam com margens robustas e payout estável, manter um grau de alavancagem moderado pode ser o diferencial que separa o ordinário do extraordinário – e isso é muito importante.

Um bom exemplo é a Irani, produtora de embalagens, com mais de 80 anos de história. A companhia, que adota uma política de payout de 50% dos lucros, encontra na alavancagem (idealmente próxima de 2,5x dívida líquida / EBITDA) um equilíbrio eficiente. Com esse nível de endividamento, a empresa consegue: [1] manter o compromisso com os acionistas em termos de distribuição robusta de lucros; [2] reduzir sua alíquota efetiva de Imposto de Renda; e [3] maximizar a rentabilidade do capital empregado – o ROIC. Por isso é que não existe dívida ruim, mas, sim, dívida mal administrada.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outras empresas com perfil semelhante de ter um modelo de negócio dependente de capital intensivo, como a Transmissora Aliança de Energia, conhecida pelo nome de Taesa. Atua há décadas no setor de transmissão de energia, que é altamente regulado e com previsibilidade de receita e que também tem demonstrado expertise ao gerir sua alavancagem em patamares peculiares sem comprometer a perenidade do negócio.

Em suma, talvez esteja na hora de repensar a forma como avaliamos o endividamento corporativo. A alavancagem não deve ser tratada como uma ameaça em si, mas como uma ferramenta estratégica, capaz de turbinar a performance financeira das companhias – desde que usada com responsabilidade e inteligência. Até porque, no final das contas, a dívida bem estruturada não apenas protege o resultado operacional, mas também potencializa os proventos. E para quem vive de renda passiva, isso faz toda a diferença.

Bruno Oliveira é analista do Vida de Acionista

Isabel Braga é CEO da Closet BoBags e da BoGo. Ambas priorizam a Economia Circular e o aproveitamento, em respeito ao meio ambiente

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