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Aprendizado com um clique? O potencial e os limites dos aplicativos de idiomas em economias emergentes

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Andrew Will-Créditos da foto: Divulgação
Andrew Will-Créditos da foto: Divulgação

A edtech pode ser um poderoso equalizador, mas só cumpre sua promessa quando enfrenta as realidades de acesso, inclusão e impacto mensurável

*Por Andrew Will

A pergunta que mais recebo ao falar sobre educação digital em economias emergentes é simples e direta: os aplicativos de aprendizagem podem realmente fechar a lacuna educacional existente? Minha resposta é: eles podem ser um grande equalizador, mas só cumprem sua promessa quando enfrentam as limitações do mundo real. Tomemos como exemplo o ensino de idiomas no Brasil. A disparidade começa com os números: pouco mais de 5% dos adultos relatam algum conhecimento de inglês, e a fluência real é ainda menor. Este é um dado clássico do estudo do British Council que continua servindo como referência no debate público.

É precisamente nesse contexto que a digitalização tem peso: mais do que oferecer novas ferramentas, ela redefine o alcance da educação. Embora o movimento tenha começado antes da pandemia de Covid-19, foi a pandemia que o acelerou. Já em 2017, o Governo Federal havia lançado a Estratégia Nacional para Escolas Conectadas (Enec), com o objetivo de apoiar o acesso universal à internet de alta velocidade e promover o uso pedagógico de tecnologias digitais na educação básica. No entanto, como em muitas economias emergentes, a digitalização também trouxe desafios: conectividade desigual, barreiras de custo e formação insuficiente de professores continuam limitando seu impacto total.

Curiosamente, esses desafios não se limitam à sala de aula tradicional. Eles também aparecem em outro mundo muito presente na vida dos brasileiros: o aprendizado de idiomas. Durante muito tempo, aprender um novo idioma foi tratado como um privilégio, restrito a escolas particulares ou cursos caros. Mas é precisamente quando esses dois mundos — educação básica e ensino de idiomas — convergem na arena digital que vemos tanto a escala da oportunidade quanto a dificuldade pela frente. Por um lado, a conectividade e as plataformas mobile-first ampliam o acesso; por outro, barreiras de inclusão e confiança ainda impedem milhões de aprendizes.

O impacto do idioma na economia global

O idioma é uma oportunidade, e a proficiência em inglês influencia diretamente a empregabilidade e os salários. De acordo com uma pesquisa de 2025, cerca de 45% dos brasileiros veem o aprimoramento do inglês como uma forma de se preparar melhor para novas oportunidades.

No mercado de trabalho, dados recentes mostram que profissionais com fortes habilidades em inglês podem ganhar até 80% a mais. Para jovens profissionais em tecnologia, atendimento ao cliente ou turismo, o inglês não é apenas “desejável”; muitas vezes é um requisito para o crescimento na carreira. Além disso, em um mundo globalizado, novos idiomas abrem portas para comércio, tecnologia e serviços globais, significando maior participação na economia global e atuando como um multiplicador de crescimento para qualquer mercado emergente. Ferramentas digitais permitem que os aprendizes pratiquem frases comumente usadas em entrevistas de emprego e reuniões de trabalho. Para mim, esta é a evidência mais clara: melhores habilidades linguísticas se traduzem diretamente em confiança e oportunidades.

Reconhecendo limites estruturais

Considerando as limitações de infraestrutura e problemas de acesso à internet no Brasil e em outros mercados emergentes — sem mencionar o fato de que muitos estudantes dependem de planos pré-pagos e smartphones mais antigos — a inclusividade requer mais do que apenas conteúdo. Para fechar verdadeiramente a lacuna, as empresas podem garantir que os aplicativos sejam leves em consumo de dados e funcionem mesmo sob baixa conectividade.

É importante reconhecer que a tecnologia só é transformadora quando enfrenta seus limites. A GSMA mostra que, mesmo sob cobertura de banda larga móvel, a “lacuna de uso” permanece ampla em países de baixa e média renda: milhões ainda não usam a internet devido a barreiras como custo, habilidades digitais e relevância percebida. Na América Latina, o relatório Mobile Economy Latin America 2024 destaca que, apesar da expansão do 5G, custos de dados, alfabetização digital e desigualdades regionais ainda exigem soluções conjuntas de edtechs, operadoras de telecomunicações e governos.

Tendências para reduzir a lacuna

De uma perspectiva global, vejo três tendências emergentes como decisivas para estreitar as lacunas educacionais em regiões carentes. Primeiro, tutores powered by IA, especialmente para prática de conversação: em lugares onde o acesso a professores é limitado, a IA ajuda a escalar a experiência e reduzir o medo de errar. O avanço real ocorre quando a aprendizagem é contextualizada — no Brasil, por exemplo, erros típicos de falantes de português precisam ser abordados de maneiras específicas, algo que só acontece quando o conteúdo é projetado com o contexto local em mente. Por fim, o design inclusivo precisa deixar de ser a exceção e se tornar a regra. Quando ambientes digitais são construídos para acomodar dislexia, TDAH e outros perfis de aprendizagem desde o início, ninguém fica para trás.

Então, qual é a promessa e quais são os limites dos aplicativos de aprendizagem? A promessa é escala com qualidade crescente: a IA generativa já permite conversação contextual, feedback de pronúncia e caminhos de aprendizagem personalizados, e a literatura aponta ganhos em vocabulário, gramática e conversação quando o uso é consistente. O limite é que a tecnologia sozinha não pode fechar a lacuna — precisamos de design inclusivo, preços alinhados com as realidades locais e parcerias que levem os produtos àqueles que mais precisam. Por fim, sem métricas de impacto como emprego, renda, retenção ou horas de conversação rastreadas, os downloads podem facilmente ser confundidos com aprendizado real. Para mim, este é o verdadeiro potencial da edtech em economias emergentes: elas são pontes poderosas — mas não resolvem nada se não chegarem às margens certas. E nosso trabalho, como profissionais do setor educacional, é garantir que elas cheguem.

Sobre o autor

Andrew Will é fundador e CEO da Promova, uma plataforma de aprendizado de idiomas para as mentes de hoje, nomeada entre as Empresas Mais Inovadoras de 2025 da Fast Company e Top EdTech Rising Stars 2025 da Time World. Forbes 30U30, DJ e surfista, ele cria espaços onde as pessoas encontram felicidade e podem crescer simultaneamente.

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