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Ataques com inteligência artificial reforçam importância da regulação para proteger investidores em criptomoedas

Crédito-Freepik

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Roubo de US$110 milhões em bitcoins reacende debate sobre segurança digital, custódia de ativos e maturidade do mercado, em um momento em que o Brasil avança na regulamentação do setor.

O roubo de aproximadamente US$110 milhões em bitcoins, atribuído a um grupo de hackers que utilizou inteligência artificial para acessar carteiras frias (cold wallets), reacendeu uma discussão que acompanha a evolução do mercado de criptomoedas. Consideradas um dos métodos mais seguros para armazenar ativos digitais por permanecerem desconectadas da internet, essas carteiras sempre foram vistas como uma importante barreira contra invasões. O episódio, porém, mostra que, à medida que os criminosos também incorporam inteligência artificial em suas estratégias, a segurança passa a depender de um conjunto mais amplo de fatores.

Embora a tecnologia continue sendo um dos pilares da proteção dos ativos digitais, ela, sozinha, já não é suficiente para responder ao novo perfil das ameaças. A discussão passa a envolver governança, processos internos, gestão de riscos, monitoramento constante e um ambiente regulatório capaz de elevar os padrões de segurança das instituições que operam com criptomoedas. Em outras palavras, a maturidade do mercado deixa de ser medida apenas pela inovação tecnológica e passa a considerar também a capacidade das empresas de prevenir, responder e mitigar incidentes.

Para Denise Cinelli, COO Global da Notbank, o episódio evidencia justamente essa mudança de perspectiva. Segundo a executiva, não existe uma única ferramenta capaz de eliminar todos os riscos, e a proteção dos ativos depende da combinação entre tecnologia, processos e governança.

“Esse episódio mostra que não existe uma única camada de segurança capaz de eliminar todos os riscos. Internamente, temos várias camadas de segurança. As ameaças estão mais sofisticadas e a inteligência artificial amplia essa capacidade. Hoje, a segurança precisa combinar tecnologia, processos, monitoramento contínuo e governança. O mercado evoluiu e os mecanismos de proteção precisam evoluir na mesma velocidade.”

É justamente nesse contexto que a regulamentação ganha protagonismo. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, as regras não impedem a ocorrência de ataques cibernéticos. Seu papel é estabelecer padrões mínimos de operação para as empresas que atuam com ativos digitais, exigindo políticas de compliance, mecanismos de controle, gestão de riscos, prevenção à lavagem de dinheiro e estruturas de governança mais robustas. Esse conjunto de exigências contribui para aumentar a transparência, fortalecer a confiança dos investidores e reduzir vulnerabilidades operacionais, especialmente em um cenário no qual os ataques se tornam cada vez mais sofisticados.

O debate acontece em um momento particularmente importante para o Brasil. O Banco Central avança na construção da regulamentação do mercado de ativos virtuais, estabelecendo diretrizes que devem redefinir a atuação das empresas do setor nos próximos anos. Para muitas instituições, o desafio deixa de ser apenas acompanhar a evolução tecnológica e passa a envolver também a adaptação a um ambiente regulatório mais rigoroso e alinhado às práticas já adotadas pelo sistema financeiro tradicional.

Essa mudança tende a impactar não apenas as empresas, mas também a forma como investidores escolhem onde negociar ou custodiar seus ativos.

Embora a autocustódia continue sendo uma alternativa relevante, principalmente entre usuários mais experientes, o crescimento do mercado amplia a procura por soluções institucionais capazes de combinar infraestrutura tecnológica, monitoramento contínuo e conformidade regulatória. O objetivo não é substituir a autonomia do investidor, mas oferecer diferentes camadas de proteção para perfis distintos, especialmente à medida que novos participantes passam a ingressar no universo dos ativos digitais.

Na avaliação de Denise, a principal diferença está na distribuição da responsabilidade pela proteção dos ativos. Na autocustódia, o próprio investidor concentra as decisões e os riscos relacionados à segurança. Já em uma instituição regulada, entram em cena controles adicionais, processos de gestão de risco, monitoramento e estruturas de governança.

“Na autocustódia, a responsabilidade pela segurança está essencialmente nas mãos do próprio investidor. Em uma instituição regulada, existem camadas adicionais de controle, processos de gestão de risco, monitoramento e exigências de governança. Não significa risco zero, mas significa uma estrutura profissional dedicada à proteção dos ativos e dos clientes.”

Outro aspecto que chama a atenção é o papel da inteligência artificial na transformação dos crimes financeiros. Se antes a IA era associada principalmente ao ganho de eficiência e à inovação dentro das empresas, hoje ela também passou a integrar o arsenal utilizado por criminosos para automatizar ataques, criar golpes mais convincentes e potencializar estratégias de engenharia social. O resultado é um ambiente em que as ameaças evoluem com rapidez, exigindo investimentos constantes em infraestrutura, monitoramento, auditorias e ferramentas capazes de identificar comportamentos suspeitos antes que eles gerem prejuízos aos investidores.

Ao mesmo tempo, a própria tecnologia pode ser empregada como mecanismo de defesa. De acordo com Denise, sistemas baseados em inteligência artificial podem analisar grandes volumes de informações e reconhecer padrões que seriam mais difíceis de identificar por meios convencionais.

“A inteligência artificial também é uma ferramenta importante de defesa. Ela permite analisar grandes volumes de dados, identificar comportamentos fora do padrão e detectar sinais de fraude com muito mais velocidade. A diferença estará na capacidade das empresas de transformar tecnologia em prevenção e resposta rápida.”

Nesse cenário, a segurança deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a representar um diferencial para instituições que desejam atuar de forma sustentável no mercado de ativos digitais. A combinação entre tecnologia, controles internos e capacidade de resposta tende a ganhar peso à medida que investidores se tornam mais atentos aos riscos associados à custódia de seus ativos.

Episódios como o recente ataque também podem mudar os critérios utilizados pelos investidores na escolha de plataformas. Mais do que avaliar quais ativos desejam comprar, eles começam a observar com mais atenção onde esses ativos estão custodiados, quais mecanismos de proteção são adotados pelas instituições e quais exigências regulatórias essas empresas precisam cumprir.

Segundo Denise, a tendência é que fatores como governança, transparência e gestão de riscos ganhem espaço ao lado de critérios tradicionalmente associados à experiência do usuário, como preço e facilidade de uso.

“O investidor precisa olhar além de preço e facilidade de uso. É importante entender quem opera a plataforma, quais controles de segurança existem, como os ativos são custodiados e qual é o nível de transparência da empresa. Com a regulamentação avançando, a situação regulatória da instituição também passa a ser um critério importante nessa escolha.”

No Brasil, esse processo ocorre em paralelo à construção de um novo marco regulatório para os ativos virtuais. A regulamentação pode elevar padrões de segurança e governança, mas também traz o desafio de encontrar um equilíbrio entre proteção ao investidor e competitividade do mercado.

Para Denise, esse equilíbrio será determinante para que as novas regras não acabem criando barreiras excessivas para empresas e usuários.

“O Brasil está dando um passo importante para o amadurecimento do setor, mas existe uma preocupação com o equilíbrio dessa regulamentação. Quando criamos exigências excessivas, corremos o risco de limitar características importantes dos ativos digitais, como velocidade, eficiência e autonomia. Se operar no mercado regulado brasileiro se tornar muito complexo ou restritivo, existe também o risco de usuários e empresas buscarem plataformas estrangeiras, o que pode produzir justamente o efeito contrário ao pretendido pela regulação. O desafio é proteger o investidor sem reduzir a competitividade e a inovação do mercado brasileiro.”

A discussão sobre segurança, porém, não se limita à infraestrutura das plataformas. Parte relevante dos golpes envolvendo ativos digitais ainda depende da manipulação do próprio usuário, por meio de técnicas como phishing e engenharia social. Nesse ponto, a educação financeira passa a ocupar um papel complementar às ferramentas tecnológicas e às exigências regulatórias.

“Grande parte dos golpes ainda explora o comportamento do usuário por meio de phishing e engenharia social”, afirma Denise. Para ela, mesmo sistemas sofisticados de proteção não eliminam a necessidade de conscientização. “Podemos ter sistemas cada vez mais sofisticados, mas o usuário também precisa saber identificar riscos. Segurança é uma responsabilidade compartilhada entre empresas, mercado e investidores.”

O fortalecimento da regulamentação, e não apenas uma reação a um caso específico, representa um passo importante no amadurecimento do mercado de ativos digitais. Em um cenário de ataques cada vez mais sofisticados, a tendência é que segurança, conformidade e credibilidade se consolidem como atributos tão relevantes quanto inovação para empresas que desejam conquistar a confiança dos investidores e sustentar o crescimento do setor nos próximos anos.

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