*Por Robson Esteves
Poucos setores evoluem tão rapidamente quanto o de eletroeletrônicos e eletrodomésticos. A cada ano, novos equipamentos chegam ao mercado trazendo mais conectividade, eficiência energética e funcionalidades que tornam a rotina das pessoas mais prática. Essa evolução é positiva. A inovação impulsiona a economia, amplia o acesso à tecnologia e proporciona produtos cada vez mais eficientes. Mas ela também traz um desafio que costuma passar despercebido: quanto mais rapidamente surgem novos equipamentos, maior é a necessidade de estruturar melhor sistemas de logística reversa para o momento em que eles deixam de ser utilizados.
Esse é um aspecto pouco discutido quando falamos sobre inovação. Normalmente, o foco está no lançamento ou nas novas funcionalidades dos produtos, mas para um equipamento realmente ser inovador, a forma como ele encerrará seu ciclo de vida também deve ser pensada. Os itens atuais dessa categoria reúnem uma combinação cada vez maior de componentes eletrônicos, sensores, placas, diferentes tipos de plástico, metais e outros materiais que exigem processos especializados para sua recuperação, então nada mais lógico do que pensar em inovar também no processo de logística reversa.
A incorporação constante de novas tecnologias mantém a renovação dos equipamentos em ritmo acelerado. Segundo o Super Panorama Mobile Time/Opinion Box 2026, 43,1% dos consumidores afirmam que com certeza ou provavelmente comprarão um aparelho novo nos próximos 12 meses. O levantamento também mostra que 22,7% deles trocam de smartphone em até dois anos, o que reforça a necessidade de preparar sistemas capazes de receber e destinar corretamente um volume cada vez maior de equipamentos ao fim de sua vida útil.
É justamente aqui que entra o elo de quem opera, na prática, o sistema de logística reversa. Se novos equipamentos chegam ao mercado a cada ano, as estruturas de coleta, triagem e reciclagem precisam evoluir na mesma velocidade, caso contrário, o sistema fica sempre um passo atrás. Um exemplo recente ilustra bem esse desafio: as air fryers. Até pouco tempo atrás, esse era um equipamento que praticamente não existia nas casas dos brasileiros e, quando começou a chegar ao fim de sua vida útil em volume, o próprio sistema de logística reversa precisou aprender como reciclá-lo corretamente. Não havia um caminho pronto: foi preciso construí-lo. É essa capacidade de adaptação contínua que os envolvidos no processo precisam promover para que todo o sistema se modernize e cresça no mesmo ritmo em que os equipamentos são trocados.
Já para fabricantes, um ponto a ser destacado é o de que uma economia verdadeiramente circular não começa apenas quando um equipamento é descartado. Ela acompanha toda a trajetória do produto, desde sua concepção até o reaproveitamento dos materiais que o compõem. Isso significa desenvolver sistemas capazes de transformar resíduos em novos recursos, reduzindo a necessidade de extração de matérias-primas e prolongando o valor econômico desses materiais.
Esse desafio já está se traduzindo em números concretos de mercado. Segundo dados do Movimento Circular, a economia circular no Brasil movimentou cerca de R$ 70 bilhões em 2025, com projeção de alcançar R$ 100 bilhões em 2026. E a adoção desse conceito já não é mais exceção nas empresas: uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizada em 2024 em parceria com o Centro de Pesquisa em Economia Circular da Universidade de São Paulo (USP), mostrou que 85% das indústrias brasileiras desenvolvem, hoje, pelo menos uma prática de economia circular. Esse movimento representa um avanço importante para a sociedade, mas também exigirá investimentos contínuos em infraestrutura, inovação e tecnologia voltadas à reciclagem, e, principalmente, em designs que já sejam pensados para uma desmontagem simples e reaproveitamento de componentes.
Porém, mais do que isso, toda essa movimentação exigirá um sistema de logística reversa capaz de evoluir na mesma velocidade: preparado para receber, entender e reciclar equipamentos que talvez ainda nem existam. Garantir que essa estrutura aprenda e cresça junto com a inovação é o que fará a diferença entre um sistema que corre atrás e um que acompanha o mercado em tempo real. Afinal, uma inovação só pode ser considerada completa quando também é capaz de deixar um legado positivo para o meio ambiente.

