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Brasil, IOF e o Vai‑e‑Vem dos Impostos: o Recado que o Mercado Captou

Fabricio Tonegutti-Créditos da foto: Divulgação
Fabricio Tonegutti-Créditos da foto: Divulgação

Você piscou – e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) mudou três vezes em pouco mais de um mês. Quando o Ministério da Fazenda assinou o decreto, em 22 de maio, prometia reforçar o caixa em até R$ 61 bilhões no biênio. Foi o suficiente para o dólar beliscar R$ 5,70, a bolsa perder fôlego e o Congresso afiar as garras. Menos de 24 horas depois, o governo já recuava parcialmente. Durou pouco: dia  25 de  junho, deputados e senadores derrubaram de vez o aumento, por esmagadores 383 votos a 98. Foi a primeira vez em três décadas que o Legislativo anulou um decreto presidencial dessa forma.

Por que todo esse barulho?

  1. Bolso e credibilidade. Ao dobrar alíquotas sobre empréstimos, seguros e remessas ao exterior, o governo apostava em arrecadar rápido – mas estressou justamente o canal que irriga crédito e investimento num país ainda viciado em juros altos.
  2. Timing infeliz. A inflação desacelera, o Banco Central ensaia baixar Selic, e a Petrobras finalmente corta combustíveis. Incluir imposto surpresa no sistema financeiro soaria, para usar termo técnico da Faria Lima, “bola fora”.
  3. Política em ebulição. Aliados reclamam de emendas atrasadas; oposição fareja desgaste. O IOF virou a bandeira perfeita: um imposto escondido na conta de todo mundo, do financiamento do carro à transferência de mesada para o filho no exterior.

Resultado? Mercado respirou aliviado: real abaixo de R$ 5,50 e Ibovespa em alta. Mas o Tesouro perdeu R$ 10–12 bilhões que já contabilizava para 2025. Vai faltar dinheiro. E agora?

O que muda na prática

●        Crédito mais barato do que estaria. Sem o IOF turbinado, a prestação do capital de giro ou do consignado não sofre aquele adicional de 0,0041% para 0,0082% ao dia. Alívio para empresas e consumidores.

●        Fluxo de capital segue livre. Remeter ou trazer recursos continua custando 0,38% ou 1,1%, não 3,5%. Isso agrada investidor estrangeiro e evita “taxa Tobin tropical” na veia de quem precisa financiar negócios lá fora.

●        Conta pública aperta. Ministério da Fazenda já avisou: ou corta R$ 12 bi em despesas, ou arrisca rombo maior que o tolerado no novo arcabouço fiscal. Se vier contingenciamento, sobram obras paradas e serviço enxugado.

E o Banco Central?

Curiosamente, a revogação pode facilitar a vida da Selic. Menos imposto, dólar mais comportado, combustível em queda – o coquetel ajuda a segurar a inflação. Falta combinar com o Congresso: o governo terá de provar que consegue gastar menos em vez de criar tributos relâmpago. Se o ajuste vier do lado da despesa, o BC ganha espaço para cortar juros. Se virar novela, o prêmio de risco volta a subir, e lá se vai a calmaria do câmbio.

O recado por trás do placar de 383 × 98

O “centrão”, os partidos da base e a oposição mandaram a mesma mensagem: não mexam no bolso do eleitor sem conversa. Imposto que aparece de madrugada some à luz do dia, pelo menos neste Congresso. Para os investidores, há um lado bom – regras não conseguem mudar sem passar pelo teste político. Para o governo, o alerta é claro: articulação e previsibilidade valem mais que criatividade tributária.

No fim, quem toma café na padaria ou opera na bolsa quer a mesma coisa: saber a que jogo está jogando. Imposto não pode ser pênalti batido no escuro. O episódio do IOF mostrou que, no Brasil de 2025, o Legislativo virou goleiro atento – e que o Executivo, se quiser marcar gol fiscal, vai ter de treinar jogada ensaiada, de preferência com arquibancada cheia e holofote ligado.

(Siga para mais análises em @mixfiscaloficial)

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