Mais do que sediar um megaevento esportivo, o desafio será consolidar investimentos, fortalecer clubes e ampliar o acesso ao esporte para transformar a modalidade de forma permanente
A Copa do Mundo Feminina 2027 será a primeira realizada na América do Sul e representa uma das maiores oportunidades da história para acelerar o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil. A um ano do torneio, a discussão deixa de ser apenas sobre estádios, calendário ou organização e passa a envolver uma questão mais ampla, o país conseguirá transformar um evento de um mês em um legado permanente para atletas, clubes e futuras gerações?
A própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou um planejamento de mais de R$685 milhões para o ciclo de 2024 a 2029, voltado à expansão das competições, fortalecimento das categorias de base e qualificação da modalidade.
Para Rafaella Krasinski, advogada especialista em Direito Empresarial e representante da Assessoria Talento, empresa especializada na estruturação, gestão e captação de recursos para projetos esportivos por meio de leis de incentivo, a Copa do Mundo Feminina 2027 deve ser encarada como um ponto de partida, e não como o objetivo final. “A Copa do Mundo Feminina 2027 representa uma oportunidade histórica para consolidar políticas públicas permanentes para o futebol feminino. O legado não será medido apenas pela qualidade da competição, mas pela capacidade de ampliar oportunidades para meninas, fortalecer clubes, formar profissionais e estruturar projetos esportivos que permaneçam ativos muito depois do encerramento do torneio”, afirma.
A escolha do Brasil como sede foi oficializada pela FIFA em maio de 2024, tornando o país o primeiro da América do Sul a receber a principal competição do futebol feminino. O torneio aconteceu entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, reunindo 32 seleções em oito cidades brasileiras.
Copa do Mundo Feminina 2027 exige planejamento além da competição
Nos últimos anos, o futebol feminino brasileiro passou por uma expansão relevante. Segundo levantamento divulgado pela CBF em julho deste ano, o número de competições nacionais femininas passou de seis para nove em cinco anos, enquanto a quantidade de partidas cresceu 79%, de 398 para 712 jogos. O número de clubes participantes também aumentou de 58 para 79, acompanhando o fortalecimento do calendário nacional.
Apesar da evolução, a advogada ressalta que investimentos financeiros, isoladamente, não garantem um legado duradouro. “Recursos são fundamentais, mas não substituem planejamento, governança e continuidade. Grandes eventos esportivos passam rapidamente. O desenvolvimento do futebol feminino acontece quando existe uma estratégia capaz de conectar investimentos públicos, iniciativa privada, formação esportiva e políticas permanentes”, afirma Rafaella.
A especialista destaca que experiências internacionais demonstram que os principais resultados aparecem quando o planejamento começa antes da competição e continua após seu encerramento. Países que sediaram grandes torneios femininos ampliaram programas de iniciação esportiva, formação de treinadoras, fortalecimento das categorias de base e expansão das ligas nacionais, utilizando a visibilidade do evento como instrumento para acelerar políticas já estruturadas.
Leis de incentivo podem ampliar o alcance do futebol feminino
Na avaliação de Rafaella, um dos instrumentos mais relevantes para transformar a Copa do Mundo Feminina 2027 em um legado permanente está na utilização das leis de incentivo ao esporte para a formação esportiva.
Ela explica que projetos esportivos incentivados no geral permitem que clubes, associações, institutos e municípios obtenham recursos para desenvolver programas de formação, manutenção de equipes, capacitação profissional e inclusão social por meio do esporte. “A realização da Copa desperta interesse de empresas, patrocinadores e da sociedade. O desafio é transformar esse interesse em projetos estruturados, juridicamente seguros e capazes de produzir impacto contínuo nas comunidades. É justamente nesse ponto que as leis de incentivo ganham protagonismo.”
Segundo a advogada, a publicação da Lei Complementar nº 222/2025 fortaleceu esse ambiente ao consolidar normas gerais para os incentivos fiscais ao esporte, conferindo maior estabilidade jurídica ao sistema e ampliando a segurança para projetos desenvolvidos em diferentes esferas da administração pública. O novo marco também reforça a visão do esporte como política pública permanente, e não como uma iniciativa pontual.
O verdadeiro legado começa depois da Copa
Para a especialista, o sucesso da Copa do Mundo Feminina 2027 não poderá ser medido apenas por recordes de público, audiência ou desempenho da Seleção Brasileira. “O verdadeiro legado será percebido alguns anos depois. Precisaremos avaliar se mais meninas passaram a praticar futebol, se os clubes ampliaram suas estruturas, se surgiram novos projetos esportivos e se o investimento realizado durante a preparação continuou gerando oportunidades para a modalidade. Esse é o indicador que realmente mostra se uma Copa do Mundo transformou um país.”
Ela acrescenta que a formação de uma atleta de alto rendimento leva muitos anos e exige continuidade de investimentos em categorias de base, equipes multidisciplinares, infraestrutura e gestão esportiva.
Nesse contexto, a Copa do Mundo Feminina 2027 representa uma oportunidade rara para integrar poder público, iniciativa privada, entidades esportivas e organizações da sociedade civil em torno de um objetivo comum, ampliar o acesso ao futebol feminino e consolidar uma estrutura capaz de permanecer ativa muito depois do apito final.

