
Rigidez, falta de reconhecimento e ausência de propósito são apontados como fatores que afastam profissionais do modelo tradicional de contratação
A maioria dos brasileiros prefere trabalhar por conta própria a ter um emprego com carteira assinada, segundo levantamentos recentes do Datafolha. Entre os fatores que explicam esse afastamento do modelo tradicional estão a busca por autonomia, a valorização do propósito e o desgaste cultural em torno da experiência formal de trabalho. O fenômeno é ainda mais visível entre os profissionais mais jovens. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, a geração Z deve representar um terço da força de trabalho global nos próximos anos. No Brasil, a proporção de pessoas que valorizam a CLT mesmo diante de um salário menor caiu de 77% para 67% desde 2022. Ao mesmo tempo, subiu de 21% para 31% o número de brasileiros que preferem ganhar mais a ter um emprego registrado.
Para Angélica Madalosso, especialista em marca empregadora e CEO da ILoveMyJob, a rejeição à CLT passa pela ressignificação do trabalho. “As pessoas estão repensando o que esperam da vida profissional, e a nova economia, somada ao avanço da inteligência artificial, ampliou as possibilidades de escolha. Hoje, é mais fácil abrir uma MEI, empreender, oferecer serviços de forma independente, atuar como freelancer, influenciador, consultor ou parceiro em plataformas digitais”, afirma.
Histórico negativo do trabalho formal
O modelo CLT tradicional ainda é muito associado à rigidez, hierarquia vertical e à figura do “chefe”. Este histórico negativo pode afastar valores importantes para os profissionais do mercado atual, como autonomia, propósito, qualidade de vida e flexibilidade, fatores encontrados de forma mais efetiva em modelos informais ou no empreendedorismo.
“Existe também um aspecto cultural. Muitos jovens cresceram ouvindo seus pais reclamarem do trabalho, da falta de reconhecimento e da frieza das empresas. O modelo CLT foi, por muito tempo, necessário, mas raramente encantador. Essa percepção acabou sendo absorvida por essa nova geração”, comenta a especialista.
Como reverter este cenário?
Para alterar a maneira como os profissionais passaram a enxergar o modelo tradicional de trabalho, a especialista aponta que as organizações precisam investir em estratégias de valorização da cultura organizacional, experiências mais flexíveis, jornadas personalizadas, atuação em projetos diversos, autonomia, menos hierarquia e mais conexão com o propósito podem tornar a CLT mais atrativa e contemporânea.
“Empresas que realmente escutam seus talentos, entendem o que importa para eles e constroem uma proposta de valor relevante vão se destacar. E isso vai muito além de benefícios. Envolve cultura, flexibilidade, liderança próxima, desenvolvimento real, reconhecimento e relações humanas. Quando as pessoas percebem que o que fazem ajuda a mover o mundo, se sentem parte de algo maior. Isso gera engajamento. E isso é o que vai diferenciar as empresas que vão seguir relevantes nos próximos anos”, diz.
Para escolher um emprego, de acordo com uma pesquisa recente da Brasil Júnior, os jovens consideram oportunidades de crescimento profissional na empresa (14%); equilíbrio entre vida pessoal e trabalho (12%); remuneração (11%); e condições de trabalho flexíveis (10,9%). A maioria (54%), aliás, diz ter mais interesse no modelo híbrido de trabalho.
“Os estudos nos mostram que o caminho para alinhar as expectativas entre profissionais e organizações é implementar a escuta ativa, o reconhecimento e a valorização. É essencial mostrar o impacto do trabalho das pessoas no negócio e na sociedade. Durante a pandemia, por exemplo, profissionais de limpeza e segurança foram indispensáveis. Sem eles, nada teria funcionado. Dessa forma, mesmo dentro da CLT, é possível criar experiências mais flexíveis. Jornadas personalizadas, atuação em projetos diversos, autonomia, menos hierarquia e mais conexão com o propósito tornam o modelo tradicional mais atrativo e contemporâneo”, finaliza Angélica.
Sobre ILoveMyJob
É o primeiro hub de marca empregadora do Brasil, dedicado a transformar a relação entre pessoas e empresas. Com atuação em mais de 20 empresas e a formação de mais de 1.000 profissionais em cursos especializados, a ILoveMyJob se consolidou como referência no desenvolvimento de estratégias personalizadas de employer branding.
Sobre Angélica Madalosso
É CEO e cofundadora da ILoveMyJob, com mais de 15 anos de experiência em Endomarketing, Comunicação Interna e Employer Branding. Formada em Relações Públicas e pós-graduada em Planejamento de Comunicação Organizacional e Marketing Digital, liderou projetos para empresas como Sicredi, GOL, CCR, Natura, Raizen, Mondelëz, Cosan, XP, iFood, Renner e OLX. Coautora do livro “A Experiência do Colaborador” (2020) e autora do livro “Employer Branding Expert” (2023), é professora, palestrante e referência no Brasil em estratégias de gestão de marca empregadora.
