Grupo chega à Justiça depois de fechar lojas, reduzir milhares de postos de trabalho e tentar renegociar R$ 4,1 bilhões por meio de recuperação extrajudicial
Depois de três anos marcados por fechamento de lojas, redução de custos, demissões e renegociação de dívidas, o Grupo Casas Bahia recorre agora à recuperação judicial para tentar avançar na reestruturação de suas finanças. O pedido apresentado à Justiça de São Paulo envolve cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas e inclui outras nove empresas do conglomerado, que atualmente emprega mais de 20 mil trabalhadores e mantém centenas de lojas físicas, além das operações no comércio eletrônico.
A recuperação judicial não significa, por si só, falência ou encerramento das atividades. O mecanismo previsto na legislação brasileira permite que empresas economicamente viáveis, mas em situação de crise econômico-financeira, renegociem suas obrigações sob supervisão judicial, buscando preservar a atividade empresarial, empregos e a relação com os credores.
No caso da Casas Bahia, porém, o pedido representa uma nova e mais profunda etapa de uma reestruturação iniciada há cerca de três anos.
Em 2023, o grupo colocou em prática um plano de transformação que previa redução de custos, fechamento de unidades e busca por maior eficiência operacional. Naquele ano, 55 lojas foram fechadas e cerca de 8,6 mil postos de trabalho foram reduzidos. Em 2024, a companhia avançou para uma recuperação extrajudicial, utilizada para renegociar aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas com instituições financeiras.
As medidas ajudaram a aliviar parte da pressão sobre a companhia, mas não foram suficientes para solucionar o desequilíbrio financeiro. Em 2026, a reestruturação ganhou uma nova dimensão, com o anúncio de aproximadamente três mil demissões e o fechamento de quase 300 lojas.
Para o advogado Eliseu Silveira, especialista em recuperação judicial, a sequência de medidas adotadas desde 2023 ajuda a explicar por que a companhia chegou à recuperação judicial mesmo depois de sucessivas tentativas de reorganização.
“Quando uma empresa passa por redução expressiva de custos, fechamento de unidades, renegociação extrajudicial de bilhões de reais e, ainda assim, continua enfrentando pressão financeira, o problema deixa de ser apenas de despesas. A recuperação judicial surge justamente como um instrumento mais amplo para reorganizar o passivo e tentar compatibilizar o pagamento das dívidas com a capacidade real de geração de caixa da companhia”, explica.
Entre os fatores apontados pela própria empresa para o agravamento da situação estão os juros elevados e a restrição ao crédito. Em um setor fortemente ligado às compras parceladas e ao financiamento ao consumidor, esse cenário produz pressão em duas frentes: aumenta o custo do dinheiro para a companhia e, ao mesmo tempo, dificulta o acesso das famílias ao crédito.
Segundo Eliseu Silveira, esse contexto ajuda a compreender por que mesmo uma empresa de grande porte, com marca consolidada, presença nacional e capacidade de gerar receita pode enfrentar uma crise de liquidez.
“Uma companhia pode vender bilhões e ainda assim ter dificuldade para dispor do dinheiro necessário no momento em que vencem suas obrigações. Quando o custo da dívida aumenta e o crédito fica mais restrito, essa pressão sobre o caixa pode se tornar insustentável”, afirma.
O especialista ressalta, entretanto, que o ingresso na recuperação judicial não representa uma solução automática para a crise. A partir de agora, o desafio passa pela construção de um plano capaz de equilibrar os interesses dos credores com a necessidade de preservar uma operação que continua empregando milhares de pessoas.
“A recuperação judicial abre uma janela para a reorganização, mas não substitui a necessidade de a empresa voltar a produzir resultados sustentáveis. O sucesso dependerá da negociação do passivo, da recuperação da geração de caixa, do controle de custos e, principalmente, da capacidade de reconstruir a confiança de credores, fornecedores, investidores e consumidores”, destaca Silveira.
Depois de três anos de ajustes e de uma tentativa de recuperação extrajudicial, o processo judicial abre um novo capítulo para o Grupo Casas Bahia. Mais do que conseguir prazo para reorganizar bilhões de reais em compromissos, a companhia terá agora de demonstrar que sua operação consegue gerar recursos suficientes para sustentar o negócio e cumprir o plano que será negociado com os credores. O resultado dessa equação determinará se a recuperação judicial será capaz de produzir o equilíbrio que as medidas anteriores não conseguiram alcançar.

