
O mercado financeiro global está prendendo a respiração mais uma vez, diante da nova data que para entrar em vigor a taxação imposta por Trump: 6 de agosto. A partir desse dia, de acordo com decreto assinado pelo presidente estadunidense na última quarta-feira, 30, as importações oriundas das principais economias mundiais receberão taxas de exportação que variam de 10%, para as do Reino Unido, a 50%, para as do Brasil. Esse cenário distópico dividiu o mercado de criptoativos em dois lados: o que acredita que o tarifaço seria o gatilho para um “inverno cripto”, com investidores abandonando ativos de risco, e o que espera o fortalecimento, ainda maior, do Bitcoin (BTC) como um ativo de proteção patrimonial, impulsionando também as stablecoins como moedas para o novo comércio internacional.
“A instabilidade geopolítica e a desconfiança nas políticas monetárias governamentais são, historicamente, combustíveis para o mercado cripto. A narrativa do Bitcoin como ouro digital, por ser um ativo escasso, descentralizado e não sujeito aos caprichos de um único governo ou instituição, ganha força nessa batalha comercial que estamos assistindo. E se as tarifas gerarem inflação ou desvalorizarem as moedas dos bancos centrais, o apelo por um ativo não-soberano pode aumentar drasticamente, impactando positivamente seu preço”, aponta Denise Cinelli, COO global da Cryptomkt, maior exchange latina de criptoativos.
A stablecoins serão beneficiadas?
Talvez o impacto mais significativo e imediato do protecionismo de Trump não seja sobre o Bitcoin, mas sim sobre as stablecoins, as moedas digitais pareadas ao euro e ao dólar, como o EURS, Tether e o USD Coin. “Em um mundo com mais fricção comercial e potenciais controles de capital, empresas e indivíduos podem recorrer às stablecoins para realizar transações internacionais de forma mais rápida, barata e com menos burocracia do que o sistema bancário tradicional. A EURS, por exemplo, combina a estabilidade do euro com a eficiência da tecnologia blockchain”, explica a executiva.
A possibilidade real de uma fragmentação do sistema de comércio internacional, além de gerar desconfiança nas instituições tradicionais, reforça a necessidade de um sistema financeiro paralelo, global e resiliente. “As stablecoins já cumprem esse papel em mercados emergentes, e uma política de tarifas agressiva poderia acelerar massivamente essa adoção em escala mundial”, afirma Denise.
E dados corroboram a visão da executiva. Relatórios da empresa de análise em blockchain Chainalysis consistentemente apontam para a alta adoção de criptomoedas, especialmente stablecoins, em países com instabilidade econômica e fortes controles de capital, como Argentina e Turquia. A lógica é que as tarifas poderiam replicar essa necessidade em uma escala mais ampla.
Vale a aposta?
Para a COO global da Cryptomkt, investimentos não devem ser realizados por rompantes e é preciso entender os fundamentos antes de mergulhar de cabeça. “O investidor precisa se perguntar: ‘Eu acredito que a demanda por ativos digitais descentralizados e eficientes aumentará em um mundo mais protecionista e incerto?’. Se a resposta for sim, ele deve estudar os projetos e gerenciar seu risco de acordo. A era da passividade acabou; a da estratégia informada está apenas começando”, alerta.
O tarifaço de Trump se desenha como um dos eventos macroeconômicos mais impactantes para o futuro próximo das criptomoedas, que pode impulsionar uma nova onda de adoção por conta da necessidade de alternativas ao sistema financeiro tradicional. E a concretização dependerá de qual narrativa prevalecerá na nova ordem econômica global.








