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Competitividade construída em rede: ecossistemas como estratégia nacional de inovação

Natali Emerick - Créditos da foto: Divulgação

Natali Emerick - Créditos da foto: Divulgação

A aproximação entre empresas e ecossistemas de inovação deixou de ocupar um papel marginal e passou a influenciar diretamente a competitividade. Ao se conectarem às universidades, startups, laboratórios e investidores, organizações ampliam seu acesso a conhecimento, talentos e tecnologias que dificilmente desenvolveriam sozinhas.

Inovar não é internalizar tudo, é construir redes capazes de transformar desafios reais em soluções tangíveis e em resultados. Participar de um ecossistema é ampliar resultados que a empresa não atingiria sozinha, porque ela passa a acessar competências externas e complementares, reduzindo risco, acelerando rotas de desenvolvimento e transformando desafios de negócio em oportunidades tecnológicas mais maduras.

O problema é que, para muitas empresas, a inovação ainda é tratada como moda e não como estratégia. Programas começam sem clareza sobre quais barreiras de negócio precisam ser resolvidas, o que leva a pilotos que não escalam e a iniciativas que não “viram nota fiscal”.

Grande parte dos erros vem justamente da falta de tradução dos desafios tecnológicos em problemas concretos de negócio. Sem essa clareza, as ações se desconectam do resultado e perdem prioridade. É também por isso que a maturidade em inovação aberta ainda é desigual: algumas empresas avançaram, mas muitas seguem atuando de forma fragmentada, com ações isoladas e de curto prazo.

Ambientes como parques tecnológicos apontam caminhos: articulação entre empresas, academia, governo e investidores, com curadoria ativa e co-criação. Quando esses atores passam a dialogar de forma estruturada, surgem diagnósticos mais precisos, rotas tecnológicas mais realistas e conexões que reduzem tempo, custo e risco de inovar. É um acelerador coletivo.

As empresas têm pressa e objetivos de negócio; os pesquisadores, tempo científico e rigor; as startups, hipóteses e necessidade de tração. O papel do ecossistema é orquestrar expectativas. Exige um trabalho de tradução, curadoria e construção conjunta. Primeiro, é preciso traduzir dores de negócio em desafios tecnológicos claros, permitindo que o ecossistema entenda o problema em termos de requisitos e possíveis caminhos de solução. Em seguida, uma curadoria ativa conecta competências científicas e empreendedoras relevantes, acelerando o “match”.

Com risco e incerteza elevados, colaboração é fundamental: pilotos, provas de conceito e sprints tecnológicos ajudam a ajustar rotas rapidamente. Por fim, o ecossistema atua como orquestrador, alinhando incentivos e construindo confiança para que empresas tragam seus desafios reais e pesquisadores e startups possam desenvolver soluções que, de fato, gerem impacto.

O Brasil ainda enfrenta dois entraves centrais à inovação: o baixo investimento em P&D, especialmente nas etapas de maior risco, e um déficit histórico na formação técnica e científica. Falta financiamento adequado para testes, desenvolvimento e fases de maior incerteza, assim como profissionais qualificados para desenvolver e aplicar tecnologias. Sem capital e talentos, mesmo diante da demanda do mercado, a inovação avança lentamente e o impacto das iniciativas permanece limitado.

As macrotendências globais reforçam a urgência de agir. A aceleração da IA, a automação, a digitalização e a agenda de sustentabilidade moldam, de forma transversal, o futuro dos negócios.  A disputa por semicondutores, energia limpa e dados indicam que inovação também é agenda de soberania e competitividade. Tecnologias emergentes têm potencial para aproximar empresas, pesquisadores e sociedade, mas isso exige governança, método e um projeto nacional claro.

Se o Brasil quiser transformar ciência em produto, conhecimento em indústria e inovação em desenvolvimento, precisará investir em pessoas, simplificar regulações e fortalecer ecossistemas capazes de converter ideias em resultados. Não se trata de acelerar quem já está pronto, mas de criar as condições para que o país avance como um todo, com estratégia, colaboração e visão de longo prazo.

Natali Emerick, Gerente de Articulações do Parque Tecnológico da UFRJ

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