Uma análise crítica sobre o modelo de privatização dos pátios de veículos proposto pelo Governo de SP – e porque ele pode custar caro à população do interior.
A promessa é de modernização, eficiência e economia. Mas será mesmo que o novo projeto do Detran-SP para a concessão dos pátios de veículos atende a esses objetivos? Para Lucas Pocay, ex-prefeito de Ourinhos, diretor da Associação Paulista de Municípios (APM) e do Desenvolve Municípios, a resposta é um contundente não. Não por ideologia, tampouco por oposição política – mas por experiência de quem conhece o chão da administração pública municipal. “O modelo proposto ignora a realidade local e ameaça desestruturar o que já funciona no interior. É preciso corrigir o rumo antes que o prejuízo se torne institucional”, alerta.
Onde está o erro: um projeto que desconsidera quem vive a realidade
O projeto do Detran-SP quer transferir para a iniciativa privada de maneira centralizada os serviços de remoção, guarda e leilão de veículos em todo o Estado, prometendo eficiência, tecnologia e preços menores para a população. O problema, segundo Pocay, é que a proposta foi desenhada sem escuta ativa dos municípios, sem análise territorial e com foco excessivo na arrecadação estadual, em detrimento da qualidade do serviço e da autonomia local.
“Cada cidade tem sua própria logística, seus próprios gargalos. Em Ourinhos, conseguimos montar um sistema que funcionava porque respeitava esse contexto. Ignorar isso é um erro técnico, não apenas político”, pontua Pocay.
Riscos reais para os cidadãos e os municípios
Se aprovado da forma como está, o projeto de concessão pode provocar uma série de efeitos colaterais indesejados: fechamento de pátios locais, aumentando a distância para remoção e recuperação dos veículos; demora no atendimento, com filas e burocracia em regiões desassistidas; aumento de custos para o cidadão, que terá que arcar com deslocamentos e taxas pouco transparentes; perda de receita municipal, já que os valores recolhidos deixarão de circular nas cidades e concentração de mercado, entregando o controle para quem tem baixa capilaridade local.
Em outras palavras: o que se vende como ganho de escala pode virar gargalo de acesso e perda de eficiência.
O que fazer, então? O caminho da descentralização inteligente
Lucas Pocay não nega a necessidade de modernizar o sistema, mas defende que isso seja feito com parcerias técnicas entre Estado e municípios, valorizando quem já opera com conhecimento de causa. Entre suas propostas estão: convênios estruturados com os municípios, garantindo autonomia com responsabilidade; operadores regionais qualificados, avaliados com base em indicadores de desempenho; incentivos à modernização dos pátios existentes, com recursos e suporte do Estado; fiscalização técnica independente e câmaras de governança para monitoramento constante.
“Não se trata de resistir ao novo, mas de melhorar o que já funciona com critério, sem desmontar sistemas operacionais por vaidade ou pressa”, explica Pocay.

E o argumento do Detran? A teoria versus a prática
Segundo o Detran-SP, a concessão trará tecnologia, transparência e menor custo para o cidadão. Mas esse é um argumento difícil de sustentar sem levar em conta a desigualdade estrutural entre as regiões do Estado.
O que funciona bem na capital ou em grandes centros pode falhar no interior, onde a geografia e a estrutura pública exigem soluções adaptadas. A padronização cega não é sinônimo de eficiência – especialmente quando não há debate com os principais impactados pela mudança: os municípios e os cidadãos.
A hora de corrigir é agora
O alerta de Lucas Pocay é mais do que um posicionamento: é um chamado à razão administrativa. Ao invés de impor um modelo único e centralizado, o Governo do Estado de São Paulo tem a oportunidade de construir um projeto mais inteligente, colaborativo e eficaz.
“Diálogo é mais barato que correção de erros. Se o Estado quer acertar, que ouça quem conhece o chão da gestão pública e pense o projeto a partir do território, não apenas do Excel”, finaliza Pocay.
A decisão sobre os pátios não pode ser feita de cima para baixo. O futuro da mobilidade urbana e da justiça administrativa nas cidades passa pela técnica, pela confiança mútua e pela escuta de quem está na ponta entre o estado e a população.








