De acordo com o Banco Central, 70% dos novos usuários de crédito recebem até dois salários mínimos
O surgimento de novas dinâmicas monetárias e a digitalização do sistema financeiro contribuem para o crescimento na oferta de crédito para públicos antes pouco contemplados, com destaque para a população jovem. De acordo com o Relatório de Cidadania Financeira, desenvolvido pelo Banco Central, o acesso a crédito entre indivíduos entre 15 a 29 anos passou de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões de pessoas em 2024, representando um aumento de 101% durante o período.
O levantamento aponta a relação entre idade e faixa de renda na construção de uma análise ampla do cenário. O crescimento se mostra mais expressivo entre os jovens com renda de até dois salários mínimos, apresentando um percentual de 70%. Entre adultos e idosos, o aumento foi de 63% e 87%, respectivamente.
Entre as causas para o momento de expansão, destaca-se a digitalização acelerada do setor financeiro, em um contexto onde bancos e fintechs expandem sua atuação, facilitando a abertura de contas e, consequentemente, a obtenção de crédito. “O cenário financeiro mudou, hoje pautado pela digitalização e conectividade fornecida pelas fintechs e instituições regulamentadas. A descentralização do setor, antes focado em entidades tradicionais, e a oferta de oportunidades para jovens no começo da vida financeira favorecem a consolidação dos dados apresentados”, explica Marlon Tseng, CEO da Pagsmile, instituição brasileira especializada em meios de pagamentos.
Mais do que inclusão, o momento acende um alerta para o risco de endividamento, sobretudo entre os mais jovens que recebem até dois salários mínimos. O relatório do BC aponta que 17,4% do grupo estava inadimplente, demonstrando a existência de uma disparidade entre acesso e educação financeira efetiva.
O fenômeno se explica por meio de duas hipóteses distintas, porém complementares. A primeira indica a ausência de uma base de dados sólida por parte das instituições para analisar o comportamento do pagador iniciante, resultando na concessão de crédito incompatível com o perfil do cliente.
A segunda frente parte de uma análise comportamental da geração, impulsionada por tendências de consumo online, se tornando vulneráveis a compras por impulso. Somadas, essas características revelam um público que demanda de uma compreensão financeira sólida, capaz de compreender cedo que o limite do cartão de crédito não representa uma extensão salarial, mas sim uma ferramenta estratégica no planejamento orçamentário.
“A democratização do crédito representa, em um primeiro momento, um avanço na inclusão financeira do país, abraçando uma parcela da sociedade que antes figurava às margens da ferramenta. Entretanto, o desenvolvimento saudável da economia depende primariamente da educação eficaz sobre o tema, uma vez que a inadimplência pode ocasionar em problemas de ordem física, emocional e financeira”, conclui Marlon.

