Dados financeiros, operacionais e de relacionamento passam a complementar score e histórico de inadimplência na concessão de recursos para empresas
O ambiente de juros elevados e de maior cautela com a inadimplência está mudando não apenas o custo do crédito, mas também a forma como o risco das empresas é avaliado. Balanço, faturamento, endividamento e histórico de pagamentos continuam no centro da análise, mas começam a ser combinados a informações capazes de mostrar o momento mais recente do negócio.
A mudança ocorre em um cenário de desaceleração do mercado. O Banco Central projeta crescimento nominal de 7,8% no saldo de crédito destinado às empresas em 2026 e aponta desaceleração do crédito pelo segundo ano consecutivo. A Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito (PTC), divulgada em agosto, também acompanha a percepção das principais instituições financeiras sobre oferta, demanda, risco e inadimplência, inclusive entre micro, pequenas e médias empresas.
Com maior seletividade, cresce a importância de informações capazes de mostrar não apenas como uma companhia se comportou no passado, mas como sua situação financeira e operacional está evoluindo. Comportamento de pagamentos, recorrência das transações, evolução financeira e características da própria operação podem acrescentar novas camadas à avaliação.
“Durante muito tempo, a análise esteve concentrada principalmente no histórico financeiro. Ele continua sendo essencial, mas hoje temos condições de cruzar uma quantidade maior de informações e entender melhor o risco daquela empresa no momento da concessão. Isso não significa flexibilizar critérios, mas aumentar a precisão da decisão”, afirma André Bravo, CEO da Bankme.
Do score à operação
A mudança pode ser especialmente relevante para pequenas e médias empresas. Negócios com menos garantias disponíveis, sazonalidade ou características específicas de seu setor nem sempre são facilmente diferenciados por modelos padronizados de avaliação.
Ao mesmo tempo, empresas que mantêm relações comerciais recorrentes com clientes e fornecedores acumulam informações que podem acrescentar contexto à análise. Uma indústria ou distribuidora, por exemplo, conhece o histórico de relacionamento, a frequência das transações e a dinâmica comercial de sua cadeia.
“Uma empresa pode ter anos de relacionamento com determinado cliente e conhecer aspectos daquela operação que não aparecem em uma classificação isolada. Quando essas informações são estruturadas e combinadas aos indicadores financeiros tradicionais, é possível construir uma avaliação mais individualizada”, explica Bravo.
A tecnologia amplia a capacidade de organizar e cruzar essas informações e também abre espaço para que a avaliação não fique restrita ao momento da concessão. Integração de dados, monitoramento e rastreabilidade permitem acompanhar a evolução dos ativos e identificar alterações ao longo da operação.
A lógica é passar de uma fotografia estática para uma leitura mais dinâmica do risco. Uma empresa pode ganhar ou perder contratos, aumentar o faturamento, alterar seu nível de endividamento ou apresentar mudanças no comportamento de pagamentos depois que o crédito foi concedido.
Para Bravo, aumentar a quantidade de informações disponíveis não deve ser confundido com reduzir os critérios para aprovação. “Mais dados não significam mais crédito automaticamente. Significam ter melhores condições para diferenciar riscos e decidir para quem conceder, quanto conceder e em quais condições. Em um cenário de capital caro e de alta inadimplência, essa precisão se torna ainda mais importante”, afirma.
A Bankme atua no mercado de crédito para médias empresas e possui atualmente cerca de 200 soluções financeiras. Em 2026, a companhia alcançou R$ 2 bilhões em volume operado, o dobro do patamar de R$ 1 bilhão registrado em 2025.








