*Dárcio Zarpellon
Inflação persistente, juros altos, aumento de subsídios alguns, dólar oscilando, arrecadação fiscal batendo recordes, reforma tributária, fim de subsídios pra outros…. tudo isso acontecendo mas o déficit público ainda crescendo.
Se você tentar juntar essas peças, vai perceber que a conta não fecha. E não é só a do governo. A conta que realmente preocupa é a das empresas que já operam no limite. A crise atual me parece silenciosa, mas está corroendo margens, capital de giro e, principalmente, a clareza nas decisões.
Enquanto o mercado discute reformas e juros, nos bastidores os sinais se multiplicam: aumento expressivo de pedidos de recuperação judicial desde o ano passado, secura no mercado de capitais (nenhum IPO relevante na B3 em quase dois anos), retração de crédito bancário, endividamento recorde das famílias e queda nos índices de confiança de empresários e consumidores.
E mesmo assim, muitas empresas seguem tocando a operação como se tudo estivesse sob controle. Vendem, entregam, pagam a folha. Mas vivem num ciclo contínuo de apagar incêndios, com decisões financeiras no improviso e pouco tempo para refletir sobre estratégia.
O curioso é que momentos como este, de incerteza generalizada, costumam separar os gestores que apenas sobrevivem daqueles que conseguem criar valor real. Oportunidades existem — mas não são óbvias. Elas exigem frieza, coragem e uma visão de longo prazo.
Para alguns, é hora de comprar ativos subavaliados, de fornecedores em dificuldade a pequenos concorrentes. Para outros, é o momento ideal para ajustar custos, rever investimentos, proteger o caixa e repensar toda a estrutura financeira da empresa. Há quem deva reduzir, mas há também quem precise crescer com inteligência — investindo em eficiência, digitalização e governança.
Não há resposta única. Mas há uma certeza: esperar passivamente não é mais uma opção. É nesse tipo de cenário que os empresários que sempre confiaram no instinto e no caixa do dia se dão conta de que precisam de método. De que ter margem não significa ter liquidez. De que faturar não significa gerar valor.
Se você é gestor, sócio ou fundador, a pergunta não deveria ser se o cenário vai melhorar ou piorar. A pergunta deveria ser: o que estou fazendo agora para garantir que minha empresa não seja pega de surpresa, de novo?
Crise também é chance de reposicionamento. De ajustes difíceis, mas necessários. De colocar o negócio de volta no rumo. Mas isso exige olhar profissional, leitura dos números e ação coordenada. Não se faz isso com achismo.
Quem age agora, lidera depois.
*Darcio Zarpellon – Executivo financeiro com mais de 30 anos de experiência, tendo atuado em diversas posições de liderança em indústrias nacionais e multinacionais.

