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Da bancarização à recebívelização: como dados transacionais podem mudar o acesso ao crédito das PMEs

Edson Silva, fundador e presidente e fundador da Nexxera - Créditos da foto: Divulgação

Edson Silva, fundador e presidente e fundador da Nexxera - Créditos da foto: Divulgação

Nova infraestrutura da duplicata escritural aumenta a rastreabilidade dos recebíveis e pode mudar a forma como financiadores avaliam o risco das empresas; para Edson Silva, presidente da Nexxera, histórico financeiro tende a ganhar peso na concessão de crédito

Durante muito tempo, o acesso ao crédito empresarial esteve fortemente associado ao relacionamento entre a companhia e as instituições financeiras. Para pequenas e médias empresas, essa relação pode ser ainda mais relevante, já que a disponibilidade de informações para avaliar o risco nem sempre é equivalente àquela existente em grandes companhias. A evolução da infraestrutura de recebíveis, porém, começa a mudar essa dinâmica ao tornar os dados transacionais mais estruturados, rastreáveis e disponíveis para análise.

A duplicata escritural está no centro dessa transformação. Ao substituir o título convencional por um registro eletrônico, o novo modelo permite acompanhar, com fidelidade, informações sobre emissão, titularidade, negociações, garantias e liquidação. Para o Banco Central, a iniciativa busca reduzir assimetrias de informação e aumentar a segurança das operações, criando condições para ampliar o acesso ao crédito e, em certos casos, a concorrência entre financiadores.

Na avaliação de Edson Silva, presidente da Nexxera, o impacto mais relevante pode estar na capacidade de transformar o histórico das operações comerciais em informação útil para o mercado de crédito. “Estamos falando de uma mudança que vai além da digitalização de um título. Quando os recebíveis passam a ter uma existência eletrônica, rastreável e padronizada, cria-se uma base de informações que pode ajudar o mercado a compreender melhor a capacidade de pagamento e a qualidade da operação de uma empresa”, afirma.

Do relacionamento bancário ao histórico financeiro

A mudança pode ser particularmente relevante para PMEs. Uma empresa menor pode não ter o mesmo histórico de relacionamento bancário, volume de garantias ou demonstrações financeiras de uma companhia de grande porte. Por outro lado, pode apresentar um histórico consistente de vendas, recebimentos e relacionamento entre empresas.

Uma empresa pode ser pequena em faturamento, mas ter uma carteira de recebíveis saudável, clientes recorrentes e um histórico de pagamentos consistente. Se essas informações estiverem estruturadas e puderem ser verificadas, elas passam a contar com um ativo real lastreado em ativos financeiros para a avaliação de risco. O crédito deixa de olhar apenas para o tamanho da empresa e passa a enxergar melhor a qualidade do ativo”, explica Silva.

O desenho da nova infraestrutura também permite que as duplicatas sejam negociadas com diferentes financiadores, incluindo bancos e fintechs. Para o Banco Central, esse ambiente pode aumentar a competição e ampliar as alternativas de financiamento para as empresas.

O recebível como uma nova camada de informação

Nesse cenário, a chamada recebívelização representa uma mudança de perspectiva. O recebível deixa de ser apenas o valor que uma empresa espera receber ou pagar no futuro e passa a funcionar, também, como um ativo real lastreado por um negócio real entre empresas.

Uma venda a prazo gera um recebível que pode ser registrado, acompanhado, negociado ou utilizado como garantia. Quanto mais estruturadas forem essas informações, maior tende a ser a capacidade dos financiadores de avaliar a qualidade da operação e o risco envolvido.

Quando se consegue enxergar melhor a origem, a qualidade e o comportamento dos recebíveis, o financiador passa a ter mais elementos para avaliar o risco. Isso pode beneficiar empresas que têm uma operação saudável, mas que historicamente encontraram dificuldades para demonstrar para o mercado”, destaca o executivo.

Dados podem reduzir a assimetria no crédito

Para a Nexxera, a discussão sobre duplicata escritural precisa, portanto, ser ampliada. A questão não é apenas tornar o processo mais digital, mas criar uma infraestrutura capaz de aproximar o mercado financeiro da realidade operacional das empresas.

O grande potencial está em transformar dados que já existem na operação comercial em informação financeira qualificada ou ativo real reconhecido. Quanto mais confiável e rastreável for essa informação, menor tende a ser a assimetria entre quem busca crédito e quem precisa avaliar o risco. Isso pode abrir espaço para uma relação mais eficiente entre empresas e financiadores”, diz Silva.

Com a duplicata escritural, os tradicionais critérios utilizados na análise de crédito devem mudar e ser analisados em tempo real, baseados nas transações das empresas, tornando-se uma nova camada de informação à avaliação das empresas. Nesse sentido, o movimento pode representar uma mudança de paradigma: da empresa que precisa provar que merece crédito para o recebível que ajuda a demonstrar a capacidade de geração de caixa do negócio.

Estamos caminhando para um mercado em que o recebível poderá falar mais sobre a empresa. A qualidade e a previsibilidade dos fluxos financeiros passam a ser elementos importantes para construir confiança. Para as PMEs, isso pode significar uma oportunidade de transformar a própria operação comercial em uma ferramenta para ampliar as possibilidades de acesso ao crédito”, conclui o presidente da Nexxera.

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