Ex-repórter da Globo e da ESPN, Paty Palhares transformou um colapso de saúde por excesso de trabalho na HIT Terapias Holísticas, healthtech que hoje reúne cerca de 100 mil usuários
A história da HIT Terapias Holísticas (Humanity in Transformation), hoje o maior aplicativo de terapias holísticas do Brasil, começa onde muitas carreiras aceleradas terminam: em uma maca de hospital. Antes de fundar a empresa, Paty Palhares vivia o auge de uma trajetória na comunicação. Havia sido repórter e produtora na ESPN e na Rede Globo, passado pela Globo em Nova York e construído a própria agência, a M9 Produções, com clientes como a própria Globo, o Hospital Albert Einstein, Palmeiras e NBA. Foi nesse ritmo, aos poucos, que o corpo cobrou a conta.
“Tive o meu famoso burnout. Tive muitos avisos antes disso e ignorei. Eu era nova, então eu queria fazer, entregar, viajar. Até que pifei“, lembra Paty. O esgotamento evoluiu para uma doença autoimune e uma internação de quase 40 dias, marcada por uma hemorragia de origem então desconhecida. Quando a causa foi identificada, veio o susto maior: havia risco de ela perder o útero, um golpe duro para quem, segundo conta, sonhava em ser mãe desde a infância. Felizmente, a cirurgia foi bem-sucedida e o útero, preservado. Mas o episódio funcionou como um divisor de águas: pela primeira vez ficou claro que ela estava voando na carreira e, ao mesmo tempo, adoecendo por dentro.
O que veio depois foi uma reconstrução. Paty mergulhou em formações terapêuticas de mindfulness, Reiki, trabalho com cristais, terapia da criança ferida e passou por retiros de silêncio e autoconhecimento. O ponto de inflexão, segundo ela, foi um curso de terapia integrativa em Urubici (SC), onde ficou quase duas semanas imersa no meio do mato, sem celular, e de onde voltou decidida a mudar de vida. Foi também nesse período que a doença entrou em remissão e, segundo ela, nunca mais voltou, uma mudança que ela atribui ao próprio processo de se cuidar e priorizar. Anos depois, veio a resposta mais generosa: apesar do que ouvira sobre a dificuldade de engravidar, tornou-se mãe de dois filhos.
Antes de nascer a HIT, porém, havia uma decisão dolorosa a tomar: encerrar a agência que ela havia construído. “O momento mais difícil da minha carreira foi fechar a M9, ter coragem para isso, porque eu tinha projetos de milhões na minha mão. Mas eu olhei para aquilo e entendi que não fazia mais sentido: marketing, números, dados, e muitas vezes fugir do propósito. Eu senti um vazio de propósito“, afirma. A escolha veio com o cuidado de não deixar ninguém para trás, segundo ela uma das coisas de que mais se orgulha: fechou a agência sem que nenhum funcionário ficasse desempregado.
A ideia da HIT surgiu justamente nesse intervalo de reconexão, já morando no litoral catarinense. Foi durante uma meditação na praia que a ideia lhe ocorreu, quase como uma voz mandando pegar papel e caneta e escrever. O rascunho ganhou corpo quando o primo, hoje sócio e CPO da empresa, a visitou, viu a anotação e reconheceu ali não um site, como ela imaginava, mas um aplicativo. A motivação era aproximar as pessoas das terapias integrativas e de um autocuidado que Paty entende como espiritual, no sentido de propósito e autoconhecimento, e não de religião.
O negócio hoje
Com um terceiro sócio, o CTO responsável pela tecnologia, a HIT foi ao ar em 2021, em plena pandemia, quando o fechamento das academias abriu espaço para parcerias digitais de bem-estar. O primeiro grande parceiro, o Wellhub, chegou logo de cara. Hoje, a HIT reúne mais de 38 práticas integrativas, como Reiki, Yoga, Mindfulness e Acupuntura, e conecta terapeutas a cerca de 100 mil usuários, com um modelo que combina o consumo direto pelo aplicativo (B2C), o atendimento a empresas (B2B) e o formato híbrido (B2B2C), em que a plataforma chega ao colaborador via benefício corporativo, o Vale Terapia. Entre os parceiros que levam a HIT às empresas estão iFood Benefícios, Wellhub e Bradesco Seguros; só pela parceria com o iFood, cerca de 870 empresas têm acesso premium à plataforma.
Por trás do aplicativo há uma rede curada de mais de 700 terapeutas credenciados, com uma fila de espera de outros 620 profissionais. As novas entradas acontecem em ciclos semestrais, após um processo de seleção e formação batizado de “Jornada da Alma”, curso que a própria Paty criou a partir da sua experiência atendendo como terapeuta, entre o fechamento da M9 e a consolidação da HIT. Desde agosto do ano passado, a plataforma bate recorde de sessões realizadas a cada mês.
Crescimento no embalo da NR-1
O crescimento aconteceu sem capital externo. A HIT atingiu o break-even em 2023 e avança em bootstrapping desde então, reinvestindo a própria operação. A meta estabelecida para o primeiro semestre de 2026 foi cumprida, mantendo a empresa no ritmo planejado para o ano.
O grande vetor de aceleração, porém, é regulatório: desde de maio de 2026, a atualização da NR-1 obriga as empresas a identificar e gerenciar riscos psicossociais no trabalho, transformando a saúde mental do trabalhador de diferencial em exigência legal. O reflexo na demanda é direto. Para 2026, a HIT projeta crescimento de 154,5% no faturamento em relação a 2025, o que deve tornar o resultado do ano cerca de 2,54 vezes maior que o do ano anterior. Na frente corporativa, a projeção de crescimento entre 2025 e 2026 chega a 165,14%, puxada pela procura por vivências, projetos recorrentes de saúde integrativa, treinamentos e palestras.
Foi na NR-1, segundo a fundadora, que a HIT encontrou espaço para implementar seus projetos de saúde integrativa nas empresas. A metodologia avalia 11 pilares de bem-estar por meio de um quiz — a Roda da Vida Integrativa —, gera um painel de indicadores e monta um plano de ação para cada empresa, com vivências, palestras, treinamentos e terapias. Para Paty, há nas companhias um fator que elas ainda subestimam: a conexão com propósito, que aproxima o colaborador da empresa quando os dois propósitos se encontram.
A trajetória rendeu reconhecimento de mercado: a HIT ficou em 5º lugar no Ranking 100 Open Startups 2024 e entre as principais health startups da América Latina, e Paty foi indicada ao Women that Build Awards, na categoria de empreendedorismo em tecnologia. Disponível para iOS e Android, o aplicativo já conecta terapeutas e praticantes em mais de 20 países.
Para Paty, hoje CEO e mãe de dois filhos, o negócio e a própria vida se confundem e é isso que sustenta a proposta da marca, resumida na pergunta “como está a sua alma?”. Se precisasse fechar a HIT hoje, diz, já se consideraria realizada com tudo o que a empresa construiu. Mas o que ela faz questão de proteger, mais do que os números, é a rotina que a manteve inteira depois do colapso:
“Eu vendo autocuidado, eu vendo espiritualidade. Se eu não viver isso, de que adianta? Não seria uma verdade no mundo. Então tenho algumas regras que não abro mão: sexta à tarde é meu horário de terapia, todo mundo na equipe sabe, ninguém marca nada. Chego em casa seis horas, desligo o computador e sou dos meus filhos até eles dormirem. Se eu abro mão disso, me atropelo e volto para o loop que vivi lá atrás, na M9. E eu não quero isso para a minha vida”, resume.
No fim, a HIT é a resposta que Paty deu ao próprio esgotamento, transformada em produto. A mesma pergunta que a tirou da maca de hospital — como está a sua alma? — é a que ela leva hoje a cerca de 100 mil pessoas e a centenas de empresas.

