por Marcelo Marcílio*
O lançamento do Desenrola Brasil 2 pelo Governo Federal reforça a urgência de enfrentar um dos principais entraves ao crescimento econômico brasileiro: o alto nível de endividamento da população. A nova fase do programa amplia o alcance das iniciativas de renegociação de dívidas, com potencial para reinserir milhões de brasileiros no sistema financeiro. O movimento é positivo, mas precisa ser analisado dentro de um contexto mais amplo.
O Desenrola é uma resposta importante a um problema real e imediato. Ele ajuda a destravar o curto prazo. Mas a discussão central é como evitar que essa mesma população volte a se endividar em poucos meses.
O Brasil convive com um cenário recorrente de inadimplência elevada, com estimativas que apontam para mais de 70 milhões de brasileiros inadimplentes, cerca de 45% da população, segundo dados do Mapa da Inadimplência da Serasa. Programas de renegociação são eficazes para aliviar esse ciclo no curto prazo, mas não atacam, isoladamente, suas causas estruturais.
Nesse sentido, o Desenrola Brasil 2 representa uma oportunidade relevante de reinclusão econômica. Ao permitir que consumidores regularizem sua situação, o programa reativa o consumo, melhora indicadores de crédito e pode gerar efeitos positivos na economia como um todo.
No entanto, o impacto de longo prazo dependerá da capacidade de combinar a iniciativa com outras agendas complementares. Educação financeira, uso mais inteligente de dados para concessão de crédito e desenvolvimento de produtos financeiros mais adequados ao perfil da população são pilares essenciais para consolidar esse avanço.
Precisamos evoluir de uma lógica reativa para uma abordagem preventiva. Isso significa usar tecnologia e dados para oferecer crédito mais responsável, com maior previsibilidade e transparência para o consumidor.
Além disso, o papel do setor privado será determinante. Instituições financeiras, fintechs e empresas de diferentes segmentos têm a oportunidade de colaborar na construção de um ecossistema mais equilibrado, no qual o acesso ao crédito seja sustentável tanto para quem oferece quanto para quem toma.
O Desenrola Brasil 2 deve ser visto, portanto, como parte de uma agenda maior de transformação econômica. Mais do que renegociar dívidas, o desafio do Brasil é criar condições para uma inclusão financeira duradoura, baseada em educação, inovação e responsabilidade.

