Com a moeda americana em patamares mais baixos, especialistas apontam oportunidades para importadores e riscos para exportadores que não ajustarem a gestão financeira
A queda recente do dólar frente ao real, observada ao longo de 2026, tem sido sustentada por fatores como a entrada de capital estrangeiro e o diferencial de juros no Brasil. Dados do Banco Central mostram que o fluxo cambial brasileiro registrou superávit de US$ 16,7 bilhões no acumulado do ano até março de 2026, reforçando a valorização do real e impactando diretamente as decisões financeiras das empresas.
Para Thiago Oliveira, CEO da Saygo, holding especializada em comércio exterior, câmbio e tecnologia, o movimento exige leitura estratégica e não apenas reação tática. “O dólar mais baixo não é apenas uma oportunidade de economizar. É um momento de reorganizar contratos, revisar fornecedores e estruturar uma política cambial mais inteligente”, afirma.
A valorização do real impacta diretamente o custo de insumos importados, reduz despesas operacionais e pode ampliar margens para empresas que dependem de produtos ou matérias-primas externas. Ao mesmo tempo, exige atenção de quem exporta, já que receitas em dólar passam a valer menos em reais, o que pode comprometer competitividade.
“O erro mais comum é tratar o câmbio como algo pontual. Empresas aproveitam a cotação do dia, mas não constroem uma estratégia. Quando o ciclo vira, o impacto vem direto no caixa”, diz o executivo.
Esse movimento também altera decisões de investimento, renegociação de contratos internacionais e até expansão para novos mercados, exigindo maior previsibilidade financeira e uso de ferramentas específicas.
O especialista aponta cinco estratégias para aproveitar o dólar em baixa sem ampliar riscos
A queda da moeda americana abre espaço para ganhos operacionais, mas exige disciplina para evitar decisões impulsivas. Especialistas defendem que o momento deve ser usado para estruturar processos e não apenas capturar vantagens imediatas.
- Antecipar importações estratégicas
Com custos reduzidos, empresas podem antecipar compras externas e formar estoque a preços mais baixos, melhorando a margem futura. - Revisar contratos internacionais
A renegociação com fornecedores em dólar pode gerar ganhos relevantes, especialmente em contratos recorrentes ou de longo prazo. - Estruturar proteção cambial
Mesmo com a queda, instrumentos como hedge e operações a termo seguem essenciais para evitar exposição excessiva a futuras oscilações. - Diversificar moedas e mercados
A dependência exclusiva do dólar aumenta o risco. Operar também com euro ou outras moedas reduz a vulnerabilidade cambial. - Integrar câmbio ao planejamento financeiro
A gestão cambial deve fazer parte da estratégia da empresa, com acompanhamento contínuo e uso de tecnologia para projeção de cenários.
Segundo o especialista, empresas que tratam o câmbio como variável estratégica tendem a atravessar ciclos com mais estabilidade. “Não se trata de prever o dólar, mas de se preparar para qualquer direção que ele tome. Quem tem método não depende da sorte”, afirma.
Além dos ganhos diretos, a queda do dólar também favorece a redução de custos logísticos e financeiros atrelados à moeda americana, o que pode melhorar a competitividade de empresas brasileiras no mercado interno. Ainda assim, o momento exige cautela.
“A vantagem existe, mas ela é temporária. O câmbio é cíclico. Empresas que usam esse período para estruturar processos saem fortalecidas. As que apenas aproveitam o preço do dia continuam vulneráveis”, diz.
A tendência é que o comportamento da moeda siga influenciado por fatores externos, como política monetária nos Estados Unidos, fluxo de capitais e tensões comerciais globais.
A previsibilidade deixa de depender do câmbio em si e passa a depender da capacidade de gestão das empresas. “Câmbio não pode ser tratado como custo operacional isolado. Ele impacta margem, preço, expansão e até sobrevivência. O dólar mais baixo é uma oportunidade, mas só para quem sabe o que fazer com ela”, conclui.

