Especialista alerta que adiar contratações estratégicas pode gerar custos ainda maiores para as organizações; substituir um profissional pode custar até 200% do salário anual
Mesmo em um cenário de juros elevados e crescimento econômico mais moderado, encontrar profissionais qualificados continua sendo um dos principais desafios das empresas brasileiras. Segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos 2025, do ManpowerGroup, 81% dos empregadores no Brasil afirmam enfrentar dificuldades para encontrar os profissionais de que precisam, evidenciando que a disputa por talentos segue intensa mesmo em períodos de maior cautela econômica.
O cenário acende um alerta para organizações que, diante da necessidade de controlar custos, optam por congelar contratações, enxugar equipes ou redistribuir funções entre colaboradores já sobrecarregados. Para especialistas, decisões tomadas apenas com foco no curto prazo podem comprometer a produtividade, aumentar a sobrecarga das lideranças e gerar impactos financeiros ainda maiores.
De acordo com a Society for Human Resource Management (SHRM), substituir um profissional pode custar entre 50% e 200% de sua remuneração anual, considerando despesas com recrutamento, seleção, treinamento, integração e o tempo necessário para que o novo colaborador alcance o desempenho esperado.
Para Marcelo Arone, CEO da OPTME, consultoria especializada em recrutamento executivo e desenvolvimento de lideranças, esse é um dos erros mais comuns das empresas em momentos de incerteza econômica. “É natural que os gestores procurem reduzir despesas quando o cenário inspira cautela. O problema é quando a economia acontece justamente na construção das equipes. Adiar uma contratação estratégica ou sobrecarregar profissionais que já estão no limite costuma gerar perda de produtividade, aumento do desgaste das lideranças e, muitas vezes, mais rotatividade”, enfatiza o especialista.
Além da dificuldade para atrair profissionais qualificados, outro desafio tem sido criar condições para que esses talentos permaneçam nas organizações. Em um mercado cada vez mais competitivo, retenção deixou de ser apenas uma preocupação da área de Recursos Humanos para se tornar uma questão estratégica, diretamente ligada à produtividade, à continuidade dos negócios e à capacidade de inovação das empresas.
Na avaliação de Arone, isso exige que as organizações deixem de tratar a gestão de pessoas apenas como uma questão orçamentária; “empresas que crescem de forma consistente não contratam apenas para preencher vagas. Elas investem na formação de lideranças, desenvolvem sucessores e aproveitam momentos de menor aquecimento do mercado para atrair profissionais estratégicos. Pessoas qualificadas continuam sendo um diferencial competitivo.”
Outro ponto destacado pelo executivo é que muitas organizações acabam adiando decisões importantes esperando um cenário econômico mais favorável. O problema é que, quando a economia retoma o ritmo de crescimento, a disputa pelos melhores profissionais se intensifica, pressionando salários e tornando as contratações mais caras. “Quem espera o mercado aquecer para buscar talentos normalmente disputa os mesmos profissionais que todos os concorrentes. Planejamento significa antecipação. Em gestão de pessoas, isso representa vantagem competitiva”, lembra Arone.
O comportamento dos profissionais também mudou. Além da remuneração, fatores como oportunidades reais de desenvolvimento, qualidade da liderança, ambiente de trabalho e perspectivas de crescimento passaram a ter peso decisivo na permanência dos talentos. Empresas que investem nesses pilares tendem a construir equipes mais engajadas, reduzir a rotatividade e fortalecer sua capacidade de crescimento no longo prazo.
Para Arone, esse novo contexto exige uma revisão na forma como as organizações constroem suas relações com as equipes: “hoje, os profissionais querem enxergar coerência entre discurso e prática. Cultura organizacional, lideranças preparadas e oportunidades reais de desenvolvimento deixaram de ser diferenciais. São fatores decisivos para atrair e reter talentos.”
Três sinais de que sua empresa pode estar economizando no lugar errado
- Adia continuamente contratações consideradas estratégicas;
- Promove profissionais sem oferecer capacitação ou suporte para a nova função;
- Aumenta a carga de trabalho das lideranças como solução permanente para reduzir custos.

