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Educação financeira: o antídoto contra o endividamento no Brasil e nos Estados Unidos

José Ricardo - Créditos da foto: Divulgação
José Ricardo – Créditos da foto: Divulgação

Por José Ricardo*

Um consumidor entra em uma loja, escolhe um produto e ouve a frase que já se tornou símbolo no Brasil: “pode parcelar em 10 vezes sem juros”. Esse conforto imediato, tão enraizado na cultura nacional, parece inofensivo à primeira vista. Mas, em poucos dias, o que era conveniência se transforma em uma fatura repleta de encargos ocultos. A prática do parcelamento, somada à falta de planejamento financeiro e o pouco conhecimento das políticas de crédito, alimenta um ciclo de endividamento que aprisiona milhões de famílias brasileiras.

De acordo com o Mapa da Inadimplência da Serasa, 78,2 milhões de brasileiros estão endividados, quase metade da população adulta. Em muitos lares, até 78,8% da renda familiar está comprometida com dívidas, num cenário em que a taxa Selic chega a 15% ao ano. O Brasil é o país do parcelamento, mas não do crédito barato, cada deslize financeiro cobra um preço altíssimo. Por trás dos números, há histórias de famílias tentando equilibrar contas em um sistema que normalizou o endividamento como parte da vida cotidiana.

Nos Estados Unidos, a realidade não é tão diferente. A dívida total de consumo ultrapassa US$ 5 trilhões, sendo US$ 1,12 trilhão apenas em cartões de crédito, com juros médios acima de 20% ao ano. O endividamento estudantil, que já soma US$ 1,6 trilhão, afeta gerações inteiras de jovens profissionais.

Relatórios do Federal Reserve apontam que 45% das famílias americanas convivem com saldos rotativos em cartões, enquanto o governo e o Consumer Financial Protection Bureau (CFPB) alertam para o avanço do modelo “Buy Now, Pay Later” (BNPL), uma espécie de “parcelamento digital” que ecoa a cultura brasileira. A comparação revela um ponto em comum: Brasil e EUA compartilham o desafio de educar financeiramente seus consumidores em meio à facilidade de acesso ao crédito e à ilusão do consumo sem consequências.

É nesse ponto que o Brasil pode exercer protagonismo, transformando sua experiência em política pública. Embora ainda não seja referência em educação financeira nas escolas, o país já desenvolve ações de grande alcance social, como o Desenrola Brasil, programa que renegociou milhões de contratos e devolveu dignidade financeira a famílias endividadas.

Paralelamente, o setor privado tem assumido um papel cada vez mais relevante, criando soluções digitais que aproximam o cidadão da renegociação de forma prática e acessível. Essas plataformas, muitas vezes 100% online e voltadas à experiência do usuário, mostram como a tecnologia pode ser uma aliada poderosa na recuperação do equilíbrio financeiro e na reconstrução da confiança.

Falo sobre isso de um lugar privilegiado de observação. Ao longo de 16 anos de experiência no setor financeiro, tive a oportunidade de atuar diretamente na liderança de operações voltadas à recuperação de crédito e à sustentabilidade das relações entre consumidores e instituições. Essa trajetória me permitiu acompanhar de perto a realidade de milhões de brasileiros e entender como fatores comportamentais, estruturais e culturais se entrelaçam na formação do endividamento. Hoje, cursando Administração e complementando minha formação em Direito, tenho aprofundado estudos sobre educação financeira como política social e corporativa, buscando unir prática de mercado, reflexão teórica e propósito público.

Essa vivência reforça uma convicção. O endividamento é um fenômeno global, e as respostas precisam ser integradas. De um lado, o Brasil enfrenta juros elevados e inadimplência recorde; de outro, os Estados Unidos lidam com uma crise silenciosa de dívidas de consumo e novos modelos de crédito. Em ambos os casos, a saída passa por três pilares estratégicos: educação financeira desde cedo, formando consumidores conscientes; políticas públicas de crédito responsável, que assegurem transparência nas condições contratuais e inovação digital em renegociação, devolvendo dignidade e poder de decisão às famílias.

Assim como o Brasil tem mostrado avanços concretos com o Desenrola e outras iniciativas digitais, os EUA também podem aprender com essa abordagem, adaptando-a para reduzir a inadimplência e fortalecer a cultura de planejamento financeiro.

No fim das contas, educação financeira não é luxo, é política social de primeira ordem. Mais do que ensinar a evitar dívidas, trata-se de construir uma mentalidade em que o crédito seja ferramenta de progresso, não armadilha.

Tanto Brasil quanto Estados Unidos vivem um ponto de inflexão: ou transformam a crise em oportunidade de mudança, ou seguirão perpetuando o mesmo ciclo. Se bem aproveitada, essa agenda comum pode inaugurar uma nova era de consciência global, em que consumir é legítimo, planejar é essencial e decidir com responsabilidade é o verdadeiro exercício de cidadania.

*José Ricardo é profissional do setor financeiro, especialista em gestão de crédito e estudante de Administração, com foco em políticas de educação financeira.

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