Política

Eleições 2026 inauguram o cabo eleitoral digital: IA passa a fabricar presença política

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Popularização da IA amplia capacidade de produzir conteúdo sintético justamente após 2022 registrar 12.573 suspeitas de desinformação.

A corrida presidencial de 2026 começa a enfrentar uma tecnologia que praticamente não fazia parte da rotina do eleitor na última disputa pelo Planalto. Em 2022, o Tribunal Superior Eleitoral encaminhou 12.573 casos com suspeita de desinformação para análise, avanço de 1.671% em relação às eleições municipais de 2020, quando foram registrados 752 encaminhamentos. Quatro anos depois, o problema encontra uma população muito mais exposta a ferramentas capazes de produzir texto, imagem, áudio e vídeo sintéticos em poucos segundos. A TIC Domicílios 2025 aponta que 32% dos usuários de internet brasileiros com 10 anos ou mais já utilizaram inteligência artificial generativa, o equivalente a cerca de 50 milhões de pessoas. Isso não significa que esse público produza conteúdo falso, mas dimensiona como uma tecnologia antes restrita a especialistas se tornou acessível em larga escala. Com mais de 155 milhões de brasileiros aptos a participar das Eleições 2026, o desafio deixa de ser apenas combater uma informação falsa escrita ou uma fotografia manipulada: passa também pela conscientização e letramento das pessoas para filtrar a informação recebida.

O assunto deixou de ser uma hipótese antes mesmo do início oficial da propaganda eleitoral, marcada para 16 de agosto. Durante a convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, um avatar produzido por inteligência artificial reproduziu imagem e voz de Jair Bolsonaro. Dias depois, a defesa do ex-presidente informou ao Supremo Tribunal Federal que ele não tinha conhecimento prévio do material e que não havia autorizado o uso de sua imagem e voz. O episódio levou ao centro da corrida eleitoral uma pergunta que tende a reaparecer ao longo dos próximos meses: até onde uma campanha pode utilizar a tecnologia para reproduzir digitalmente uma pessoa real? Para o professor e doutor Celso Camilo, especialista em inteligência artificial, a escala alcançada pelas ferramentas generativas torna esse debate mais urgente. “Hoje já é possível produzir e colocar praticamente qualquer pessoa para falar qualquer coisa, em qualquer lugar e em qualquer língua. Isso traz benefícios para a produção de conteúdo e para o audiovisual, com custo reduzido e maior velocidade, mas também tem seus riscos. Os deepfakes podem ser utilizados em golpes, nas redes sociais e também para manipulação política. Estamos próximos de uma eleição e muito ainda será discutido sobre o uso inadequado dessa tecnologia”, explica.

O termo deepfake se refere ao uso de modelos de aprendizado profundo para gerar dados sintéticos, como voz, imagem e vídeo. A técnica pode ser empregada de forma autorizada em filmes, publicidade e outros conteúdos legítimos, mas também pode ser usada em golpes, crimes e campanhas de desinformação. Para o eleitor, reconhecer uma falsificação está longe de ser uma tarefa simples. Os deepfakes atuais conseguem combinar voz, expressões faciais, movimentos e cenários de maneira cada vez mais convincente, enquanto a rapidez da circulação nas redes sociais reduz o intervalo entre a publicação e a disseminação de um conteúdo. Celso Camilo afirma que algumas inconsistências ainda podem servir como primeiro sinal de alerta, embora não devam ser interpretadas isoladamente como prova de manipulação. “Para o leigo observar um vídeo e perceber que ele é artificial ou um deepfake é muito complexo. Uma primeira dica é observar os olhos e perceber se os movimentos parecem estranhos ou pouco naturais. Também é importante olhar para as mãos, a quantidade e o movimento dos dedos, além do próprio movimento do corpo. Outro ponto é o cenário. Às vezes existem dois objetos e, de repente, aparece um terceiro sem muito sentido. Mudanças desse tipo podem ser um indicativo de construção artificial”, afirma. A verificação, portanto, precisa ir além da aparência: identificar quem publicou o conteúdo, procurar a versão original, comparar a declaração com registros de fontes confiáveis e evitar o compartilhamento imediato de vídeos que provoquem surpresa ou indignação passam a ser barreiras práticas contra a disseminação de material manipulado.

A Justiça Eleitoral também chega a 2026 com regras mais específicas para enfrentar esse cenário. O TSE determina que propaganda contendo material sintético produzido ou significativamente alterado por IA informe o uso da tecnologia de maneira explícita, destacada e acessível. As normas também buscam impedir deepfakes destinados a prejudicar ou favorecer candidaturas e estabelecem uma restrição adicional no período mais sensível da votação: entre as 72 horas anteriores ao pleito e as 24 horas posteriores, fica proibida a publicação, republicação e o impulsionamento de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial. O descumprimento pode levar à retirada imediata do material e, conforme a irregularidade, a outras sanções previstas na legislação eleitoral. A tecnologia, portanto, não transforma apenas a maneira como campanhas produzem conteúdo; ela transfere parte da disputa para a própria autenticidade do que chega à tela do eleitor. “Quando 70% dos entrevistados acreditam que a inteligência artificial pode ser usada para influenciar as eleições e menos da metade consegue reconhecer a origem artificial de um vídeo, fica claro a necessidade também de letrar a população sobre o assunto. No entanto, a resposta não pode depender exclusivamente da percepção individual do eleitor ou de uma única ferramenta de detecção. É necessário combinar rastreabilidade desde a origem, identificação clara de conteúdos sintéticos, mecanismos de autenticação, sistemas capazes de verificar a procedência de materiais suspeitos, análise mais rápida pelas plataformas e responsabilização de quem produz e distribui conteúdos fraudulentos. O eleitor também tem um papel importante: observar a origem da publicação, buscar confirmações independentes e evitar compartilhar materiais cuja autenticidade não esteja clara. As regras eleitorais de 2026 representam um avanço, mas nenhuma medida isolada será suficiente. O objetivo não deve ser impedir o uso da inteligência artificial, mas aumentar o custo da fraude e dos crimes, reduzir a velocidade e o impacto da desinformação e tornar a verificação e o bloqueio mais ágeis, precisos e automatizados”, conclui Celso Camilo.

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