Uso concentrado em eficiência limita impacto da tecnologia, enquanto oportunidades reais estão em escala, personalização e novos modelos de negócio
A inteligência artificial já entrou na agenda das empresas e deixou de ser restrita a projetos piloto conduzidos por áreas de inovação, pelo menos é o que as empresas dizem. O problema é que sua adoção não se traduz automaticamente em diferencial competitivo, especialmente quando a maioria das empresas ainda a utiliza de forma pontual.
Nesse contexto, se por um lado a tecnologia tende a se tornar uma commodity, assim como energia e internet, já que o acesso é cada vez mais amplo, por outro, as empresas ainda não sabem as melhores formas de usá-la.
A tendência geral é buscar na IA soluções para deixar seus processos mais rápidos e baratos, ou seja, ganhar eficiência e cortar custos. Apesar de não ser um uso incorreto – pelo contrário – essa visão reflete um uso limitado da tecnologia.
Felipe Matos, especialista em IA e CEO da 10K Digital, – especializada em alavancar a tecnologia e as estratégias de negócios para capacitar startups, PMEs e scaleups –, afirma que o maior potencial da tecnologia está em usar a tecnologia para aumento de retorno financeiro, e não apenas economia. “Parece simples, mas exige um outro olhar. Ao invés de olhar para a IA como uma tecnologia que deve se adaptar aos meus processos, eu preciso adaptar os meus processos para usar o máximo potencial da IA.”, diz o especialista. Com a capacidade de amplificação de muitos aspectos do trabalho humano em escala sem precedentes, é possível gerar muito mais valor, oferecendo soluções melhores e mais completas e ao mesmo tempo gastando menos. A redução de custo tem um teto, vai até 100% do budget atual. Mas o ganho em receita pode ser multiplicado em muito mais vezes com a estratégia certa”, completa.
A tecnologia gera maior impacto quando atua diretamente nas alavancas de crescimento, permitindo ampliar escala e transformar a forma como as empresas capturam demanda e geram ganhos. Mais do que eficiência operacional, pode impulsionar resultados, como ticket médio, conversão e novos produtos, desde que orientada por estratégia e com foco em crescimento sem aumento de custos.
O potencial da IA em ação
Em estudo “Desbloqueando o potencial da IA no Brasil”, a Amazon Web Services comprova que mais de 40% das empresas brasileiras já adotam efetivamente a ferramenta em seus negócios, dentre esses, 95% já registram aumento de receita.
A possibilidade de gerar ganhos foi comprovada pelo CEO em um dos projetos recentes liderado por ele na área de políticas públicas de estímulo à inovação para o Sebrae. Matos utilizou agentes de IA para realizar análises em larga escala. Segundo o executivo, a tecnologia permitiu executar o equivalente a 12 anos de trabalho de pesquisa em apenas dois meses, com mais de 200 mil análises conduzidas em 10 idiomas, o que gerou um ganho 70 vezes maior de eficiência. “Não é só sobre economizar, é sobre escalar valor: gerar milhões de interações personalizadas, operar em escala contínua e fazer, com IA, o que antes era impossível, por isso ela deve ser vista como multiplicadora de valor, não apenas redutora de custos”, comenta
Ainda assim, esses resultados não acontecem de forma automática: o ganho está diretamente ligado à capacidade de aplicar a solução com um direcionamento claro de negócio, conectando uso, estratégia e execução. Sem isso, empresas podem cometer erros, como considerar a IA responsabilidade exclusiva da área de TI, limitar o acesso por receios ligados à segurança e governança, e a implementação sem revisão de estrutura, cultura e processos.
Além disso, o especialista complementa que, assim como líderes precisam aprender gestão de pessoas, também precisam desenvolver a gestão de agentes de IA. Isso envolve diversos aspectos, inclusive relacionados à chamada “psicologia dos modelos”. Gerir um agente, ou mesmo um conjunto deles, é essencialmente diferente de gerir funcionários.
“IA não é só tecnologia, é um novo modelo mental sobre como o próprio trabalho e as relações passarão a funcionar. Quem entender isso mais rápido e, principalmente, melhor, vai capturar as maiores oportunidades. Implementar esse recurso começa muito antes de usar uma ou outra ferramenta. É preciso conscientizar as pessoas, qualificá-las, adaptar processose cultura e manter um ciclo permanente de reaprendizagem, e aplicação de novas soluções. Não é um problema de TI. É de Negócio, gestão, operação e pessoas”, conclui.

