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Entre a urna e o futuro: o lugar da economia circular no Brasil

Alexandre Gallana - Créditos da foto: Divulgação

Alexandre Gallana - Créditos da foto: Divulgação

Por Alexandre Gallana Junior, CEO e sócio-fundador da Yattó

O Brasil enterra dinheiro. Em 2024, o país gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos urbanos e enviou só 8,7% à reciclagem, segundo a Abrema. Outros 40% tiveram destino inadequado. Plástico, papel, metal e vidro que poderiam voltar à indústria viraram passivo, enquanto a economia segue demandando novas matérias-primas. E boa parte do que se descarta não perdeu valor, apenas não encontrou rota: mesmo materiais de baixa reciclabilidade podem, com design e inovação, virar produtos e substituir recursos virgens onde é tecnicamente viável.

A perda é global. O Circularity Gap Report 2026 estima que o modelo linear desperdiça € 25,4 trilhões por ano, cerca de 31% do PIB mundial. Só em bens de consumo de giro rápido, a Fundação Ellen MacArthur calcula até US$ 700 bilhões anuais em economia de materiais.

O tema quase não aparece no debate eleitoral, mas o próximo governo e o novo Congresso herdarão uma agenda em curso: a Estratégia Nacional de Economia Circular e o plano nacional para 2025–2034, com 18 macro-objetivos e 71 ações. Começa outra etapa. O desafio não é mais adotar a circularidade, e sim executá-la: implementar, integrar atores e coordenar.

Há ainda um relógio externo. Aplicável desde 12 de agosto, o regulamento europeu de embalagens (PPWR) inaugura um cronograma progressivo: a partir de 2030, exigirá reciclabilidade mínima e, no plástico, teor mínimo de reciclado. Ou o Brasil estrutura sua cadeia e vira fornecedor de matéria-prima circular, ou importará material e tecnologia para cumprir regras alheias. Temos matriz energética limpa e recursos que a Europa já não tem. Faltam escala, rastreabilidade e, sobretudo, demanda.

Em muitos setores, soluções circulares ainda enfrentam desvantagem de custo ou escala diante de cadeias lineares maduras, e as famílias decidem pelo preço, com razão. Cabe à política pública formar mercado: compras públicas que considerem o ciclo de vida criam demanda; normas técnicas que reconheçam materiais secundários dão segurança a quem compra; financiamento à inovação, como o da Finep, reduz riscos; e a coordenação entre União, estados e municípios leva a política à ponta.

Eleições duram um ciclo; mudar um modelo produtivo exige uma geração. 

Quem assumir o Executivo e o Legislativo receberá uma agenda que depende de continuidade e cooperação entre poder público, empresas e sociedade para gerar renda e competitividade. Com seus recursos, o Brasil pode deixar de cumprir exigências externas e ajudar a defini-las. Mais do que a eleição, importa o país que construiremos depois dela.

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