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Estamos censurando a nossa própria história

Há alguns dias assisti a um vídeo da jornalista Camila Brandalise e fiquei pensativa, triste… Talvez porque ela tenha me atingido em cheio e porque eu mesma já tenha feito isso inúmeras vezes. Estamos apagando registros de momentos felizes porque não gostamos de como aparecemos neles, e isso não é nada bom.

Pense por um instante na quantidade de fotografias que deixaram de existir por causa de um julgamento estético. Uma viagem maravilhosa, uma reunião de família, uma comemoração, um abraço, uma gargalhada, o cachorro correndo. Tudo isso é descartado porque alguém olhou para a própria imagem e concluiu: “Não gostei de como saí na foto.” Mas e o momento? O momento também era feio?

A neurociência nos ajuda a entender por que fazemos isso. O cérebro humano possui uma capacidade impressionante de detectar imperfeições. Durante milhares de anos, essa característica foi importante para a sobrevivência. Nosso cérebro evoluiu para identificar ameaças, riscos e desvios com enorme rapidez. O problema é que passamos a aplicar esse mecanismo contra nós mesmos.

Hoje nos transformamos em observadores implacáveis da própria imagem. O braço parece grande demais, a barriga apareceu um pouco, o cabelo não ficou bom, a papada surge em um ângulo inesperado, e aquilo que deveria ser um registro de vida passa a ser um relatório de defeitos.

As redes sociais, que a socióloga Sherry Turkle denomina como palcos performáticos, ampliaram brutalmente esse fenômeno e pesquisas mostram que o Instagram está fortemente associado à comparação de aparência e à insatisfação corporal. Não nos comparamos apenas com outras pessoas, passamos a nos comparar com versões editadas delas. Versões filtradas, selecionadas, retocadas, rebocadas, versões que muitas vezes nem existem na realidade.

Contudo, talvez exista um efeito ainda mais triste acontecendo: não estamos apenas comparando corpos, estamos comparando memórias e, ao fazer isso, começamos a censurar a nossa própria história. Suponha abrir um álbum daqui a vinte anos e perceber que faltam registros importantes, como viagens, aniversários, encontros, pessoas que você amou, pessoas que já não estão mais aqui. Não porque esses momentos não aconteceram, mas porque, em algum instante, alguém decidiu que sua imagem não era suficientemente bonita para merecer ser guardada.

Com o passar dos anos, comecei a perceber algo curioso. Aos vinte anos, olhamos para uma fotografia e vemos o cabelo, roupa, peso, pele. Aos sessenta e cinco, olhamos para a mesma fotografia e vemos outra coisa. Vemos quem estava ali e quem já não está mais. O que sentimos, o que vivemos, o que aquela tarde significou. As fotografias vão muito além da aparência, elas registram a presença.

Por isso me entristece pensar na quantidade de lembranças que estamos perdendo e das que perdi em nome de um padrão estético impossível de alcançar. Nós não estamos apagando apenas imagens, estamos apagando provas de que estivemos ali e vivemos aquele momento. De que amamos, rimos, viajamos, construímos amizades e compartilhamos a vida com outras pessoas.

Talvez um dia descubramos que o valor de uma fotografia nunca esteve na perfeição da imagem. Esteve no fato de ela testemunhar uma existência, uma história, uma emoção. Uma fase que jamais voltará. E seria uma pena perder essas lembranças apenas porque fomos mais severos com a nossa aparência do que generosos com a nossa própria vida.

Penso que está na hora de fazermos uma pergunta diferente quando olhamos para uma fotografia. Em vez de perguntar “como eu saí?”, talvez devêssemos perguntar: “Como eu vivi aquele momento?” porque, no final, é isso que realmente merece ser lembrado.

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