Com estimativa de movimentar R$ 100 bilhões por ano no Brasil, o artesanato representa cerca de 3% do PIB e gera renda para milhões de brasileiros
Uma peça de roupa usada pode ganhar uma nova função comercial quando passa por um processo de transformação. Técnicas como a estamparia artesanal e o upcycling oferecem a pequenos negócios uma alternativa para diversificar produtos, explorar a personalização e buscar diferenciação em mercados competitivos.
A aposta na qualificação de artesãs acompanha a importância econômica do setor. Estimativas divulgadas pelo Sebrae apontam que o artesanato movimenta cerca de R$ 100 bilhões por ano no Brasil, o equivalente a aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB), e gera renda para milhões de brasileiros.
A presença feminina é expressiva nesse mercado. Segundo informações divulgadas pelo Sebrae, as mulheres representam mais de 77% dos artesãos profissionais cadastrados no país, o que reforça a importância de iniciativas que associam qualificação profissional, empreendedorismo e autonomia econômica.
Essa é uma das possibilidades exploradas por uma oficina gratuita de estamparia realizada pelo Ateliê 11 em parceria com o programa Mãos e Mentes Paulistanas, da Prefeitura de São Paulo. A formação reúne 25 participantes no CATe Central, no centro da capital, e segue até 10 de novembro, com aulas técnicas e uma etapa complementar de empreendedorismo.Com aulas às terças e sextas-feiras, a formação prevê 13 encontros, com carga horária total de 40 horas. A iniciativa é viabilizada pelo Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais (PROMAC), realizada pela Frida! Produtora Cultural e conta com patrocínio exclusivo do Grupo Cury.
O curso foi estruturado para pessoas que já desenvolvem atividades artesanais, como costura, crochê, bordado, pintura e produção de objetos decorativos. A proposta é incorporar novas técnicas ao repertório desses profissionais, criando possibilidades de aplicação em produtos existentes e de desenvolvimento de novas linhas.
Segundo Kizzi Kauana, coordenadora do projeto, o perfil das participantes é um dos diferenciais dessa oficina. “Muitas já têm seus próprios negócios, vendem pela internet, participam de feiras e trabalham com técnicas como costura, crochê, bordado e pintura. A estamparia chega para acrescentar novas possibilidades ao que elas já produzem, permitindo diversificar os produtos e agregar valor ao trabalho”, explica.
A lógica acompanha um desafio recorrente entre pequenos empreendedores; como ampliar o valor percebido de um produto sem depender exclusivamente do aumento da escala de produção. Em atividades artesanais, a personalização, a identidade visual e a combinação de diferentes técnicas podem funcionar como instrumentos de diferenciação.
O educador Eduardo Fugisse, que trabalha há cerca de cinco anos com oficinas de estamparia, explica que a técnica pode ser aprendida gradualmente, mesmo por quem nunca teve contato com esse tipo de produção.
“Todas as pessoas podem trabalhar e produzir estêncil. Não é uma técnica muito difícil, mas exige bastante atenção, principalmente na hora de fazer os recortes com estilete”, conta Eduardo.
Personalização como estratégia de negócio
Proprietária da Pena Atelier, Sandra trabalha há quatro anos com costura e há dois anos e meio com upcycling, prática que transforma roupas e materiais usados em novas peças. Ela participa frequentemente de desfiles de moda e feiras, além de vender suas criações por indicação de clientes. Seu trabalho inclui principalmente peças em jeans, brincos e customização de calçados.
“Decidi fazer o curso porque vi uma oportunidade de agregar algo novo ao meu trabalho. Já consegui aplicar o que aprendi em uma peça que apresentei num desfile de moda. A estampa fez muito sucesso e o público gostou bastante”, conta Sandra.
Outra participante, Juliana Sintra, proprietária da Concrecriar, fundada em 2024, trabalha com objetos decorativos em concreto. Ela comercializa seus produtos em feiras e espaços de venda, incluindo shoppings, e procurou a oficina para incorporar novos elementos às peças.
“Acredito que combinar a arte em concreto com a estamparia será um grande diferencial para o meu trabalho. Não vejo muitas pessoas que produzem peças em concreto utilizando essa técnica e quero explorar essa possibilidade”, explica Juliana.
Para Ana Silvia Forgiarini, idealizadora do Ateliê 11 e responsável pela Frida! Produtora Cultural, que há 15 anos desenvolve projetos sociais ligados à arte e à inclusão, a combinação entre formação artística e empreendedorismo é fundamental para ampliar as oportunidades das participantes. “As aulas de empreendedorismo complementam esse percurso, estimulando as participantes a transformar os conhecimentos adquiridos em possibilidades de geração de renda”, afirma.

