Dados apontam forte convergência em estratégia, portfólio e gestão no setor elétrico
A ISO 56001, norma internacional para sistemas de gestão da inovação, pode contribuir para estruturar a governança dos programas de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI) do setor elétrico. Foi essa a constatação do estudo “ISO 56001 e PDI ANEEL, Um Modelo Integrado de Governança da Inovação para o Setor Elétrico Brasileiro”, desenvolvido por Alexandre Pierro, doutorando da Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Paulo. A pesquisa identificou uma convergência de 87,9% entre a norma e tais dimensões analisadas no programa.
Ao incluir, também, obrigações legais de investimento, contabilidade, prestação de contas e procedimentos regulatórios, o índice de cobertura documental cai para 64,4%. “A diferença evidencia que, embora a ISO 56001 ofereça uma estrutura para organizar a inovação, sua aplicação não substitui os controles específicos exigidos pelo Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PROPDI)”, pontua Pierro.
A integração entre gestão e conformidade, segundo o doutorando, é essencial para que as empresas transformem iniciativas de inovação em processos estruturados e resultados acompanháveis. Isso porque a ISO 56001 ajuda a organizar a inovação como um sistema de gestão, conectando estratégia, portfólio, recursos, indicadores e aprendizado. Mas essa estrutura precisa caminhar junto com os mecanismos regulatórios e financeiros do PDI ANEEL, que possuem exigências próprias.
Dentre as oportunidades de aplicação da norma, se destacam frentes como priorização de projetos, avaliação de riscos e maturidade tecnológica, gestão do conhecimento, acompanhamento de indicadores e exploração de propriedade intelectual. “Esses mecanismos podem contribuir para decisões mais consistentes sobre a continuidade dos projetos e para a identificação antecipada de fragilidades na documentação e na execução. Mas, para isso, é necessário um modelo integrado que articule quatro frentes: sistema de gestão da inovação, governança regulatória do PDI, governança financeira e gestão de evidências e aprendizagem”, destaca.
A proposta, com isso, é conectar as prioridades corporativas aos requisitos do programa, mantendo rastreabilidade das decisões, dos investimentos e dos resultados alcançados. Isso significa que as empresas precisam combinar a estrutura de gestão prevista na ISO 56001 com uma matriz específica de conformidade regulatória, contemplando responsabilidades, prazos, critérios de elegibilidade, documentos comprobatórios e procedimentos aplicáveis. A implementação da norma, isoladamente, não garante a redução de glosas ou o reconhecimento de investimentos pela ANEEL.
Não faltam ganhos potenciais para as empresas que trilham essa jornada: de uma maior integração estratégica, conectando as diretrizes da ANEEL e do PEQuI aos objetivos corporativos; à uma maior qualidade do portfólio; prevenção de fragilidades, graças à definição de papéis claros, documentação, auditoria interna e análise crítica que ajudam a identificar problemas antes dos monitoramentos e da prestação de contas; e um maior favorecimento da captura de aprendizados.
Quanto às vantagens diretas no PDI da ANEEL, é possível ter um maior alinhamento das prioridades empresariais; melhor alocação entre tecnologias, horizontes e riscos; decisões mais robustas; fortalecimento das equipes e maior capacidade de utilizar, licenciar e comercializar resultados. A proposta, portanto, se torna incorporar os controles à rotina dos projetos, em vez de concentrar esforços apenas nos momentos de monitoramento e prestação de contas.
No final, a maturidade inovadora depende da capacidade de conectar estratégia, projetos, conhecimento e resultados a uma governança consistente. No setor elétrico, isso também exige incorporar as particularidades regulatórias ao sistema de gestão, para que a inovação seja conduzida com método e rastreabilidade. “Mais do que adotar uma norma, o importante é construir um sistema em que estratégia, gestão dos projetos e conformidade regulatória funcionem de forma integrada. É essa conexão que pode dar mais consistência a esses processos e, dessa forma, preparar as empresas para transformar investimentos em resultados concretos”, conclui Pierro.
Alexandre Pierro é doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.

