Dados oficiais revelam que 95% dos envios já utilizam malha própria da companhia; especialista Hugo Vasconcelos analisa como o domínio do Full e do Flex redefine a estratégia de sobrevivência dos vendedores
A disputa por preço deixou de ser o principal fator de decisão dentro do Mercado Livre. Com consumidores mais atentos ao prazo de entrega e à experiência de compra, a eficiência logística passou a ocupar o centro da estratégia competitiva na plataforma. Soluções como Mercado Envios Full, que concentra estoque em centros de distribuição, e Envios Flex, voltado a entregas no mesmo dia, têm alterado a dinâmica entre os vendedores e influenciado diretamente o desempenho comercial.
O avanço dessa estrutura aparece nos dados oficiais da companhia. O 2024 Impact Report, relatório institucional anual que reúne indicadores operacionais, logísticos e de impacto da empresa para o mercado e investidores, funciona como um documento de transparência que apresenta a estratégia global da companhia, e indica que 95,1% dos envios realizados na plataforma se originam na malha logística integrada da empresa. O documento também aponta que 71,8% das entregas foram concluídas em até 48 horas no período analisado. Os números se referem à operação global do grupo.
Segundo o relatório, a expansão da infraestrutura própria, que inclui centros de distribuição e soluções integradas de envio, tem sido determinante para reduzir prazos e padronizar o nível de serviço. Ao ampliar o controle sobre estoque, processamento e transporte, a empresa diminui a dependência de operadores externos e consolida uma rede mais integrada.
Para Hugo Vasconcelos, especialista em vendas de produtos físicos por marketplaces e sócio-fundador da Pronix, essa estrutura mudou o peso da logística na estratégia dos vendedores. “A logística deixou de ser apenas uma etapa operacional. Ela influencia reputação, conversão e a visibilidade dentro da plataforma. Quem entrega mais rápido tende a ter melhor performance”, afirma.
Dentro do Mercado Livre, a adesão ao Full é vista por muitos vendedores como forma de ampliar competitividade. “A logística influencia o algoritmo. Quem opera com estoque no centro de distribuição tem mais chance de aparecer e converter”, diz Vasconcelos. Segundo ele, parte dos lojistas ainda concentra esforços apenas em anúncios e precificação, sem estruturar operação e estoque para acompanhar a nova dinâmica de entrega.
O impacto não se limita ao momento da venda. “Não adianta vender muito e não conseguir cumprir prazo. A reputação dentro do marketplace é determinante para o ciclo seguinte”, afirma. Para o especialista, a recorrência de vendas está diretamente ligada à capacidade de cumprir prazos e manter padrão de serviço.
Com mais de sete anos de atuação no setor e duas operações que ultrapassaram R$1 milhão por mês em faturamento, Vasconcelos avalia que o movimento tende a acelerar a profissionalização do ecossistema. “O mercado amadureceu. O vendedor que trata logística como custo vai perder espaço. Ela precisa ser vista como investimento estratégico.”
Na avaliação dele, a ampliação da malha própria também eleva o nível de exigência para quem ingressa na plataforma, ao mesmo tempo em que cria oportunidade para quem consegue integrar estoque, prazo e experiência do cliente. “A diferença entre crescer ou estagnar está na capacidade de integrar estoque, prazo e experiência do cliente”, afirma.
Em um ambiente no qual o consumidor acompanha o rastreamento em tempo real e espera entregas cada vez mais rápidas, a logística deixa de ser apenas suporte operacional e se consolida como variável central de competitividade no maior marketplace da América Latina.








